Você sabe, querida?
- Maggie Paiva

- 23 de set. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 19 de out. de 2022
Uma das minhas memórias mais antigas é do dia em que eu soube que não pertencia à minha família.
Naquele domingo, eu me lembro de ter acordado mais cedo que o normal. Era o aniversário de cinquenta anos de casamento dos meus avós maternos e uma das poucas oportunidades de reunir toda a família em um só lugar.
Dias antes, mamãe havia chegado em casa com um vestido tão bonito nas mãos! Todo em tons de lilás, minha cor preferida, com uma fita de cetim branca colada à cintura, mangas bufantes de tule e uma saia rodada e esvoaçante. Fiquei girando até ficar tonta, para ver a saia voando, tentando acompanhar meu movimento, antes que mamãe pedisse que eu tirasse o vestido, para não sujar.
“Você parece uma princesa”, ela disse. “A vovó vai adorar. Foi presente dela, sabia?”.
Fiquei tão feliz com o elogio sincero da minha mãe quanto por ter recebido um presente da minha avó. Ela não era uma pessoa muito calorosa, do tipo que enche os filhos de carinho e os netos de mimos. Naquela época, eu já sentia que ela era distante, mas atribuía isso à sua personalidade. E mamãe, que era o oposto dela em diversos sentidos, me ensinava que era importante, se não amar, pelo menos respeitar o jeito de ser de cada pessoa.
Naquela manhã, enquanto mamãe escovava meus cabelos escuros, eu alisava a saia do vestido para ter certeza de que não havia nenhum amassado. Quem sabe ao me ver parecendo uma princesa, vovó me presenteasse também com um sorriso de aprovação.
“Você sabe, querida”, mamãe começou, “quando eu soube que você ia nascer, eu comecei a orar para que você tivesse cabelos lisos. Não me importava que não fossem louros, como os meus, nem me importava com os traços que você teria. Eu só queria que os seus cabelos fossem lisos… Para ser fácil de pentear, assim”.
“E veja só como minhas orações foram bem atendidas. Nunca vi cabelos lisos como os seus! Certamente não os meus, nem dos seus primos ou primas. Isso não é fantástico? Você, com certeza, tem os cabelos mais bonitos de toda a família”.
Sentada de frente para o espelho, eu observei minha expressão murchar um pouco. Eu ainda não entendia porque, mas aquele tipo de comentário, que minha mãe fazia com certa frequência, me incomodava. Ainda não sabia o que ela estava tentando supercompensar. Anos depois, quando eu soubesse, me perguntaria se ela fazia aquilo por mim ou por si mesma.
Com meus sete anos de idade, eu já sabia que era adotada, mas eu não me importava com isso e, em nossa casa, o assunto era tratado com bastante naturalidade. Mesmo assim, eu não costumava fazer perguntas sobre minha origem ou meus pais biológicos; meus pais de verdade também não evocavam a existência deles espontaneamente.
O que eu sabia era que meu pai e minha mãe me amavam e eu os amava com todo o meu coração. Naquela época, isso era tudo que eu precisava. Mas, às vezes, eu me surpreendia com um desejo repentino de me observar em outras pessoas, em outra pessoa que fosse. Ali, diante do espelho, eu senti de novo.
Observando o rosto da minha mãe e o meu, tão próximos um do outro, eu não encontrava um único traço que existisse tanto nela quanto em mim. Nesses momentos, eu imaginava que, em algum lugar do mundo, existia uma pessoa, homem ou mulher, com não apenas alguns traços, mas toda uma face parecida com a minha.
Era nesse instante que eu interrompia o meu próprio pensamento. Eu já tinha medo do que eu ainda nem conhecia, mas em mais algum tempo saberia: se eu me permitisse divagar demais, eu sentiria um vazio profundo, do qual seria difícil escapar em seguida. O vazio de não saber de onde, de quem, eu era.
Mas eu tinha tudo que eu precisava. Todo o carinho que eu queria. E esses eram só momentos que sumiam com o vento, pela janela do meu quarto. Ou pelo menos era isso que eu achava quando eu ainda sentia pertencer à família que me escolheu.
No quintal dos meus avós, a algazarra dos meus primos e as cores fortes da decoração logo me fizeram esquecer o incômodo de horas antes. Uma conversa entre minha mãe e minha avó, no entanto, me deixou confusa novamente.
“Você comprou um vestido novo para ela?”
“Sim, ela não está linda?”
A poucos metros de distância, minha mãe me observava, nervosa. Metade dela queria se certificar de que eu não estava escutando, a outra metade queria mostrar que estava tudo bem.
“Pela beleza de pessoas como ela, não há muito o que ser feito.”
“Mãe, por favor…”
“É só mais uma coisa cara para ela estragar.”
“Mãe…”
“Você sabe, querida… Pessoas como ela só existem para estragar tudo que tocam.”
“Mãe!”
Saí correndo.
Minha mãe foi me encontrar embaixo de uma mesa vazia, mal montada e esquecida em um canto afastado do quintal. Mamãe enxugava desajeitadamente suas lágrimas para que eu não a visse chorando. As minhas escorriam sem parar pelas minhas bochechas quentes e molhadas.
Foi ali que eu aprendi uma verdade muito importante, mas que criança nenhuma deveria estar aprendendo na minha idade: uma pessoa pode agredir outra sem mexer um único dedo. As palavras que saem de sua boca podem ser igualmente cruéis. E a forma como elas são ditas, ainda que não marquem a carne, podem deixar cicatrizes dolorosas na alma.
E ouvir a forma que minha avó falou ― cuspiu ― suas palavras sobre mim foi uma das maiores violências que eu havia sofrido até então.
“Não foi a vovó que me deu o vestido?”
“Você sabe, querida”, minha mãe estava desconcertada, inquieta, “a vovó não tem muita energia para ficar indo a lojas e procurando vestidos.”
Sua expressão se contorceu, como se ela não acreditasse nas próprias palavras. Mas logo seus olhos se iluminaram com o que parecia ser uma ideia repentina.
“Mas foi a vovó que deu a ideia do vestido novo, viu? É a mesma coisa!”
Mamãe acariciou os meus cabelos por alguns minutos até que uma das minhas tias veio nos chamar para a foto em família. Quando chegamos, todos já estavam tomando seus lugares.
Minha avó gostava de tirar fotos em família com os filhos de um lado e as filhas do outro, por ordem de nascimento, com os netos na frente dos respectivos pais e mães. Ainda enxugando o rosto, me dirigi para o meu lugar, bem ao lado do meu primo Marcelo, quando ouvi a voz dela.
“Não, não. A menina preta não. Você sabe, querida, apenas família, para variar.”
Fixei os olhos na minha mãe, que não disse nada e saiu na foto completamente lívida, como se tivesse visto um fantasma. Logo após o click da câmera, ela correu até onde eu estava sentada, na primeira vez que eu a vi sem palavras.
“Você sabe, querida, que a vovó te ama, não sabe?”




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