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Dona Laura | Parte 4

  • Foto do escritor: Maggie Paiva
    Maggie Paiva
  • 29 de set. de 2022
  • 5 min de leitura

Atualizado: 19 de out. de 2022



Na noite de quinta, uma chuva fininha caía enquanto dona Laura e eu seguíamos para a Torre 2, mais lentamente do que em qualquer outro dia até ali. Foi só o seu braço repousar no meu que ela retomou sua história.


“Eu não fui com ele, minha filha. Não tive coragem.”

“Eu gostava dele, de verdade, sabia disso. Mas só Deus sabe o que eu já tinha sofrido na mão do Eugênio, não tinha coragem de confiar em outro homem, ainda não. Além disso, se ele nos achasse era capaz de matar Santiago e me deixar viva só para que eu soubesse que era culpa minha. Como eu poderia viver com algo assim?”

“Quando eu parei de tremer, eu pedi que ele fosse embora, mas ele não queria ir de jeito nenhum, Perguntou se eu achava que ele era doido de me deixar ali esperando Eugênio acordar para acabar de me matar. Mas eu falei que não ia ficar ali.”

“Peguei a carteira no bolso do Eugênio e tomei o dinheiro que tinha dentro, nem lembro mais quanto era. Corri no quarto e peguei as roupas que consegui segurar numa mão. No caminho até o portão, enfiei tudo numa sacola e saí daquela casa pela última vez na vida.”

“Pedi para o Santiago me deixar no ponto de ônibus, rápido, por favor. Ele não falou nada e me levou na garupa de sua bicicleta, com o vento fazendo arder meus machucados, mas enxugando as lágrimas do meu rosto. No ponto, agradeci ao Santiago e pedi que ele fosse embora pra longe também, que não ficasse na mesma cidade que o Eugênio.”

“Comprei uma passagem e peguei o primeiro ônibus para Fortaleza, que, para minha sorte, saiu em menos de cinco minutos. Santiago ficou ali parado. Depois, eu o vi indo embora enquanto o ônibus fazia a curva para pegar a estrada.”


Dona Laura fez uma nova pausa para me deixar digerir aquele final.

Eu não entendia! Ela havia passado a vida inteira com seu segundo marido, Santiago. Será que ela havia mentido antes? Será que eu tinha entendido o nome errado? Ou será que existiram dois Santiagos em sua vida?

Eu não sabia no que acreditar e estava com mais perguntas do que respostas. O final que eu achava que conhecia nunca me pareceu mais distante. Felizmente, logo a sexta veio e, com ela, o verdadeiro final daquela história.


“Em Fortaleza, eu fui morar e trabalhar na casa de uma senhora que eu conheci no ônibus e que precisava de companhia. Um anjo que Deus colocou na minha vida, dona Isaura.”

“Nunca mais falei com minha mãe ou meu pai. A única comunicação foi um telegrama que eu mandei para eles, dizendo que estava bem e mentindo que tinha ido embora pra São Paulo, para o caso de Eugênio ir atrás deles pra saber onde eu estava.”

“Algumas semanas depois, a dona Isaura me levou para conhecer o mar. Parecia que eu estava diante de uma pintura. Fiquei encantada com a vista, com o som, com os cheiros. Mas quando fechei os olhos para sentir melhor tudo aquilo, só consegui imaginar Santiago sentado na areia, ao meu lado.”

“Vivi dois anos muito bons, servindo e fazendo companhia para a dona Isaura, até que fiquei sem rumo de novo, quando ela faleceu. O filho dela veio para cuidar dos preparativos e disse que eu poderia ficar até o enterro, mas que depois ia vender a casa e já tinha uma empregada na dele.”

“Foi o jeito dele dizer que eu teria que encontrar meu próprio caminho e que ele não tinha nada a ver com isso. Eu pensei que ia ficar desesperada. Mas eu já havia passado por tanta coisa, ia conseguir dar a volta por cima de novo.”

“Perto da hora do almoço, chegou o marceneiro, para medir dona Isaura para o caixão. Aí quem quase caiu mortinha no chão fui eu, quando vi que o marceneiro estava acompanhado do Santiago! E ele, que já era branco, ficou parecendo um fantasma quando me viu!”

“Eu comecei a chorar e abracei ele. O filho da dona Isaura e o marceneiro não entenderam nada.”

“Depois, a gente conseguiu conversar. Ele me levou de volta para aquela noite, para onde eu não queria voltar, mas precisava ir para descobrir o que aconteceu.”

“Ele disse que depois que eu fui embora no ônibus, ele foi para a casa do tio e contou o que tinha acontecido. Só deu tempo de terminar a história e o Eugênio apareceu, em tempo de derrubar a porta, perguntando onde eu estava e dizendo que ia matar o Santiago. O cunhado, que era uma boa pessoa, se recusou a abrir e disse que ninguém ia matar ninguém naquela casa. Botou um dinheiro na mão do sobrinho e o fez sair pelo quintal.”

“Naquela mesma noite, Santiago também foi embora para Fortaleza, só com a roupa do corpo. Na cidade, ele logo encontrou emprego numa funerária, ajudando a fazer caixões. Lá mesmo, ele dormia, até juntar um dinheiro e conseguir alugar uma casinha, onde morava agora.”

“Santiago contou que pensava em mim todos os dias, que toda folga que tinha, ia para alguma praia, para ver se me encontrava entre as pessoas. Que muitas vezes confundiu alguém comigo e chorou ao perceber que não era eu.”

“Temendo a resposta, perguntei se ele sabia se Eugênio continuava procurando por mim ou por ele. Ele disse que não tinha mais voltado na cidade, a pedido do tio, para não morrer. Mas, um mês antes, o tio havia enviado uma carta, falando que a busca de Eugênio havia cessado. Sem parar de beber, e bebendo ainda mais, na verdade, ele havia falecido de cirrose, aos 50 anos.”

“A notícia da morte de Eugênio me deixou com sentimentos confusos. Eu nunca torci para que ele morresse. Eu orava por sua alma, Deus sabe que sim. Mas saber que ele não estava mais procurando por mim me fez sentir um alívio que eu nem sabia o quanto estava esperando para sentir.”

“Perguntei a Santiago se a carta falava algo sobre meus pais e ele disse que, pouco tempo depois da minha fuga, meus pais tinham ido embora, mas ninguém sabia para onde. Diziam que para Iguatu, onde minha mãe tinha uma irmã.”


Dona Laura olhou para mim, que estava chorando sem parar, fingindo que o elevador não havia chegado e partido várias vezes ali na nossa frente. Mais uma vez, ele se abriu e, depois de me puxar para dentro, ela falou:


“Eu sei o que você quer saber, minha filha. Santiago e eu nos casamos menos de um mês depois. No outro ano, nos mudamos para a casa que ele mesmo construiu, já com a nossa filha nos braços. E foi nessa casa que nós moramos até ele falecer, quando eu me mudei pra cá.”


A porta do elevador abriu e dona Laura saiu, recitando seu mantra para mim: “Obrigada, minha filha. Se cuida”.

Dessa vez, lembrando que eu só a veria na segunda, respondi: “A senhora também, dona Laura”.



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