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Dona Laura | Parte 5

  • Foto do escritor: Maggie Paiva
    Maggie Paiva
  • 3 de out. de 2022
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de out. de 2022



Na segunda, quando eu desci do táxi, não vi dona Laura na eclusa, esperando por mim. A chuva estava forte naquele dia e imaginei que ela não tivesse ido caminhar.

Sozinha no elevador, eu ri para mim mesma, percebendo que sabia tanto sobre a história de vida daquela senhora, mas não sabia o número de seu apartamento, para ir fazer uma visita.

No dia seguinte, uma terça, as chuvas de novembro haviam dado uma trégua e o tempo estava seco como se estivéssemos em agosto. Mesmo assim, dona Laura não estava na eclusa.

Perguntei ao porteiro se ele havia visto ela fazer sua caminhada e subir antes de eu chegar, mas ele disse que também não a via desde a sexta-feira.

“Você pode me dizer o número do apartamento dela, só para eu ligar e ver se está tudo bem?”

“Eu não devia, sabe, dona Ana? Mas eu sei que vocês duas são amigas e que ela não vai se importar. É o 205.”

Entrei no apartamento decidida a ligar para dona Laura, mas, quando ia pegar no interfone, ele tocou, me assustando.

Do outro lado da linha, Marília, a filha de dona Laura e seu marido Santiago, me informou, ainda chorando muito, que a mãe havia falecido naquela tarde.


***


Enfim, eu fiz a minha visita ao apartamento da filha de dona Laura. Engraçado que, quando eu toquei a campainha, uma parte de mim achou que a senhora de cabelos muito brancos e óculos redondos iria atender.

Quando Marília atendeu, no entanto, eu me confortei ao perceber o quanto as duas eram parecidas.

Depois do enterro, Marília me convidou para tomar um café em seu apartamento e eu fui de bom grado, falar sobre dona Laura e a história que ela havia conseguido terminar para mim. Sua filha chorou e sorriu alternadamente ao me ouvir falando sobre a história de seus pais.

Ela agradeceu, tanto pelo quanto eu escutei sua mãe quanto por todas as vezes que a acompanhei. Só ali eu percebi, enquanto respondia que “não foi problema nenhum”, que eu havia ganhado muito mais do que oferecido em minhas trocas com dona Laura.

“Só tem uma pergunta que nunca consegui fazer ", eu disse.

“Qual?”, Marília perguntou.

“Na noite em que dona Laura fugiu do Eugênio, que Santiago a socorreu, o que será que ele foi fazer lá? Como será que ele sabia que ela estava em apuros, precisando dele?”

“Ah”, Marília falou. “Para essa pergunta, eu tenho a resposta.”

Ela levantou, fazendo um sinal com a mão para que eu esperasse um minuto, foi até um dos quartos e voltou com um cavalo de madeira nas mãos. Parecia algum tipo de brinquedo antigo.


“Isso eu escutei direto do meu pai, que tinha suas próprias histórias para contar.”

“Na época em que ele estava trabalhando nos móveis do quarto de bebê, quanto mais perto ele chegava de terminar, mais ele temia o dia em que não teria mais motivos para ir até a casa da minha mãe e vê-la.”

“Então, além de demorar um pouco mais, de propósito, quando voltava para a casa do tio, ele ia direto até a oficina, trabalhar nesse cavalo de brinquedo, para dar ao futuro bebê dela.”

“Naquele dia, tendo terminado o seu trabalho, ele chegou em casa e terminou o cavalinho, decidido a fazer quantos brinquedos de madeira precisasse para usar como desculpa para ir vê-la mais uma vez.”


Marília depositou o brinquedo em minhas mãos e eu fiquei alisando sua textura, sentindo toda a história e a passagem do tempo, impressas nela.

“Ele foi entregar o brinquedo a ela”, eu afirmei, mais do que perguntei.

Marília balançou a cabeça para cima e para baixo.

“Ele percebeu que não conseguiria esperar até o dia seguinte e muito menos até existir um bebê para ser presenteado”, explicou Marília.

“E isso salvou a vida dela naquela noite”. completei.

“E isso garantiu a minha existência", riu. “Felizmente, o cavalinho ficou na sacola, na bicicleta, quando meu pai chegou na casa correu, ao ouvir o que estava acontecendo. Depois, ele apenas o guardou, até eu mesma existir e ele me presentear.”

Só percebi que estava chorando quando vi uma lágrima pesada cair em cima do brinquedo, que eu ainda segurava.

“Seu pai deve ter te dado muitos brinquedos de madeira na infância, não é?”, perguntei.

“Ele deu. Mas não se preocupe, nenhum deles viu mais lágrimas que o meu cavalinho de madeira preferido.”


FIM


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