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Dona Laura | Parte 3

  • Foto do escritor: Maggie Paiva
    Maggie Paiva
  • 28 de set. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 19 de out. de 2022


(Alerta de gatilho: Violência doméstica)


Naquela noite, depois de Dona Laura sair do elevador como se nada tivesse acontecido, eu fui enxugando minhas próprias lágrimas no caminho até o vigésimo segundo andar.

Eu sabia que ela havia passado a vida ao lado de Santiago. Felizmente, sem nem mesmo se dar conta, ela já havia me adiantado essa parte de sua história. Mas eu sentia que o clímax do seu relato ainda estava por vir.

No dia seguinte, o tom de sua voz denotava tensão. E enquanto a senhora falava, minhas perguntas silenciosas iam sendo respondidas uma a uma.


“Naquela mesma noite, Eugênio chegou em casa bêbado como nunca. Ele foi ao quarto do bebê, pronto, e perguntou onde diabos estava o filho que ele queria. Triste como eu já estava, recomecei a chorar, com vontade de dizer que tomara era que eu fosse estéril, mas com medo de despertar a ira e a loucura do homem.”

“Não que ele precisasse de qualquer incentivo meu, os berros logo começaram, cada vez mais altos e zangados. Parecia até que a casa balançava debaixo dos meus pés. Ele me culpava, me xingava, dizia que eu não servia para nada e eu tremia, com medo do inevitável momento em que ele iria para cima de mim.”

“Fedendo que nem a peste, ele chegou mais perto e mandou eu ir para o quarto e tirar a roupa, que ele já chegava e ia fazer com mais força do que nunca pra ver se finalmente colocava um bebê naquela minha barriga de quenga fraca. Eu odiava quando ele me xingava, as lágrimas escorriam sem eu nem me dar conta. E eu não falava nada, por puro medo.”

“Mas naquela noite, enquanto ele gritava na minha frente, com aquele hálito de cachaça queimando meu rosto, eu fiquei lembrando da voz e do hálito doce do Santiago. Eu fechei os olhos e, de novo, minha filha, eu não sei de onde é que saiu isso, mas eu gritei um ‘não’ bem na cara do homem.”

“Se você visse a cara com que ele me olhou. Parecia o próprio demônio na minha frente. Naquela hora, eu tive certeza que ia morrer. Mas sabe o que eu senti? Não foi medo não, foi alívio. Nessa hora, eu senti que não tinha mais nada a perder mesmo e virei outra pessoa.”

“Dei um empurrão nele e disse que não ia pra canto nenhum. Ele perguntou se eu tinha ficado louca. Acredita? Eu falei que tinha ficado, sim, e talvez tivesse ficado mesmo porque me deu vontade de rir. Falei que não queria filho dele e que se ele quisesse podia me matar logo, que me fazia um favor.”

Minha expressão deve ter revelado minha surpresa e meu orgulho daquela amiga que eu adoraria ter conhecido em sua juventude, pois dona Laura deu uma risadinha antes de continuar:


“É claro que ele me bateu. Demorou uns segundos para ele assimilar o que eu havia falado, mas os socos vieram, primeiro na minha boca, depois no meu peito. Eu me curvei, sem ar, e ele aproveitou para dar outro soco na minha cara, e com esse eu caí no chão. Aí ele deu um chute nas minhas costelas, falando que ia me matar mesmo, mas ia matar devagar. Ele disse que se eu queria morrer mesmo, eu ia ter que implorar pra isso.”

“Em algum lugar do meu cérebro, no meio daquela surra, eu ainda consegui pensar que ali estava a ira, a loucura que eu tanto temia despertar nos últimos anos. Mas nem apanhando daquele jeito eu me arrependi, porque a vida que eu vinha levando ao lado dele não era vida. E fosse o que fosse, eu estava pronta para partir.”

“Eu não ouvi o portão abrindo, não ouvi passos, nada. Só ouvi o grito e senti Eugênio saindo de cima de mim. Achei que ele tinha mudado de ideia sobre me matar, mas quando consegui abrir um pouco os olhos, me dei conta do Santiago em cima dele, batendo, socando.”

“Não sei por quanto tempo isso durou, mas Santiago parou, com Eugênio desmaiado e ensanguentado embaixo dele. Foi quando ele pareceu recobrar a consciência e perceber o que havia feito. Ele se levantou, veio até mim e perguntou se eu estava bem, se conseguia me levantar, se conseguia andar. Eu não conseguia falar ou responder nada e só quando ele colocou a mão no meu rosto que percebi que estava chorando e tremendo muito.”

“Ele me chamou para fugir. Com ele. Disse para irmos embora dali logo, antes que Eugênio acordasse ou alguém chegasse. Que ele tinha algum dinheiro, ia me levar para Fortaleza ou para qualquer outro lugar com mar, para começar outra vida.”

“Sabe o que eu falei? Falei que não, que Eugênio ia atrás de mim, ia atrás dele e ia matar nós dois uma hora ou outra. Ele teimou, disse que a gente se escondia, se mudava, fazia o que fosse preciso.”

“Ele queria me convencer a ir embora dali naquela hora, mas eu só voltei a ficar com medo. Disse que ele ia me bater, igual meu marido, que era louco igual, que ia me maltratar igual. Se ele ficou ofendido, nem deu pra perceber. Só fez prometer que nunca ia encostar um dedo em mim, que jurava pela vida da mãe, do pai, pela cruz, por Jesus.”


Nessa hora, dona Laura deu um longo suspiro. Por mais devagar que eu tenha tentado andar até ali, a porta do elevador se abriu e a senhora seguiu para o apartamento da filha.

“Obrigada, minha filha. Se cuide”, ela disse enquanto o elevador voltava a se fechar.

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