Dona Laura | Parte 2
- Maggie Paiva

- 27 de set. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 19 de out. de 2022

A caminhada da portaria até o elevador era curta. Mas, a passos lentos, dona Laura e eu tínhamos, toda noite, pelo menos alguns minutos dos relatos pelos quais eu comecei a me ver cada vez mais ansiosa.
Certa noite, ela me surpreendeu com a revelação de que Santiago não foi o seu primeiro marido. Antes dele, houve outro homem, com quem ela ficou por menos de dois anos.
Amigo do pai dela, Eugênio era quase 30 anos mais velho e a tirou de casa quando ela própria tinha acabado de comemorar seu 18º aniversário.
“Ele bebia muito. Bebia e me batia. Andava com uma faca escondida no sapato. Eu nunca sabia quando ele ia cansar de usar as mãos em mim e pegar a faca. Na única vez que eu contei, meu pai não acreditou em mim, não acreditou ou não se importou. Só disse que marido e mulher brigam, mas que se eu deixasse a casa limpa e a comida feita, eu ia ficar bem. Minha mãe, coitada, podia me consolar e só. Ela nem sonharia em contrariar o marido, que tinha dado a benção para o meu casamento, em alguma coisa.”
“Depois, o Eugênio descobriu que eu tinha falado com meu pai. Eles eram amigos né, acho que meu pai mesmo que contou. Naquela noite, eu achei que ia conhecer a faca. Mas ele ainda não queria me matar, queria era me ver sofrer, chorar, gritar, implorar pra ele parar”.
Em momentos como esse, dona Laura ficava com o olhar perdido, como se voltasse, por alguns instantes, ao momento que contava. Eu mesma esquecia minha própria vida e me via dentro de cada cena descrita por aquela senhora que eu ainda conhecia tão pouco.
Entre a história com Eugênio e como ela conheceu o grande amor da sua vida, acho que um mês se passou. Em uma noite de lua cheia, sem nenhum aviso, a expressão no rosto de dona Laura suavizou, o braço no meu ficou mais leve e eu soube que era chegada a hora de conhecer Santiago.
“Eu conheci o Santiago na casa da irmã do Eugênio, ele era sobrinho do marido dela e estava passando algumas semanas com o tio para aprender a profissão dele, de marceneiro. Ele tinha quase a mesma idade que eu, só dois anos mais velho, e era tão bonito, mas tão bonito.”
“Naquela noite, a irmã do Eugênio estava dando um jantar para comemorar a segunda gravidez. Eu sentei de frente para o Santiago e passei o tempo inteiro tentando não olhar pra ele. Se o meu marido visse eu olhando outro homem, me dava uma surra de cinto. E se ele visse eu falando com um sem a permissão dele, me matava. Eu sabia disso porque ele já tinha falado e eu não era nem doida de duvidar da loucura dele.”
“Depois daquele jantar, o Eugênio botou na cabeça que queria ser pai, que era hora de eu dar um filho a ele. Eu queria ter um bebê, mas eu rezava toda noite a Deus pra não colocar uma criança daquele homem na minha barriga. Toda noite, minha filha. Mas o Eugênio quando decidia uma coisa, pronto, estava decidido. Só me restava esperar que a vontade de Deus ficasse do meu lado.”
“Logo, ele contratou o cunhado para fazer o berço, o guarda-roupa, o quarto todinho do filho que ele queria e eu temia. Era o único homem que ele deixava entrar em casa quando ele estava fora, trabalhando, porque era da família. Mesmo assim, logo que Eugênio recebia o cunhado, era para eu subir para o quarto e me trancar até ouvir o marceneiro saindo pelo portão da frente.”
“Um dia, Matias, o cunhado do Eugênio, precisou levar a mulher ao médico e mandou o sobrinho lá em casa, no lugar. O Eugênio recebeu o moço, mas não gostou nada da surpresa. Disse que ia falar com o cunhado depois e ele mesmo me levou até o quarto e só saiu quando me ouviu trancando a porta do outro lado.”
“Já de tarde, eu ouvi uma batida tímida na madeira e a voz de Santiago pedindo um copo com água. Falei que ele podia ir tomar na cozinha, que os copos estavam no armário, do lado do fogão. Naquela tarde, a sobrinha do Eugênio nasceu e o cunhado dele pediu para mandar o sobrinho pelo restante da semana. Faltava pouco para terminar o quarto do bebê e Matias garantiu que o rapaz era tão bom no trabalho quanto era de confiança. Acabou por dobrar o meu marido.”
“Mesmo assim, no outro dia, Eugênio não foi trabalhar. Ficou em casa para ver Santiago trabalhando. O rapaz não falou uma palavra o dia todinho e só saiu do quarto onde estava trabalhando para ir embora. Era o que o meu marido precisava. Na manhã seguinte, mal recebeu Santiago e já saiu para o trabalho. Poucos minutos depois, escutei aquela voz perguntando se podia beber um copo com água.”
Para o meu desespero, essa parte da história acabou em uma sexta e eu só veria e ouviria dona Laura de novo na segunda. Foi um final de semana inteiro sonhando, sem querer, com berços de madeira crua, uma jovem de menos de 20 anos com cabelo branco e pensando se eu deveria convidar minha vizinha de torre para um café da tarde.
Antes que eu decidisse, no entanto, a semana seguinte chegou, com novas partes daquela história, cujo final eu já não via a hora de ficar sabendo.
“Todos os dias, pouco depois que Eugênio saía para trabalhar, Santiago batia na porta do meu quarto e perguntava se podia beber água na cozinha. Ele tinha uma voz bonita também, parecia a voz de um locutor de rádio. Eu escutava e ficava imaginando o rosto dele se mexendo, falando. Um dia, eu não aguentei. Até hoje, não sei o que deu em mim."
"Depois que ele pediu pra ir beber água, eu abri a porta do quarto e fui até a cozinha. Ele tomou um susto quando me viu parada na soleira, quase derrubou o copo. Eu sabia que se o meu marido chegasse naquela hora, ele me matava e era capaz de matar o Santiago também, mas comecei a conversar com ele.”
“Eugênio não me pegou no flagra. Nem naquele dia, nem nos outros. E eu passei a me rebelar mais. Ia para o quarto e trancava a porta até ele ir trabalhar. Depois, saía e ficava no quarto do bebê, conversando com Santiago, enquanto ele trabalhava nos móveis. Em poucos dias, a gente conversou sobre tantas coisas. Sobre nossas famílias, filhos, planos para o futuro, sonhos. Contei a ele sobre a minha vontade de conhecer o mar, que não tinha ali no interior. Ele falou que adoraria me levar na praia, em Fortaleza, e congelou no meio de uma martelada.”
“Naquele dia, Santiago terminou o trabalho. Quando eu o vi saindo pelo portão, comecei a chorar. E chorando fiquei até precisar ir fazer a janta do outro, antes que ele chegasse. Na cozinha, agora vazia, eu percebi que ir a uma praia era um desejo antigo, de antes. Meu sonho agora era conhecer o mar de braços dados com Santiago. Mas eu sabia que esse sonho nunca se realizaria e chorei um pouco mais, deixando as lágrimas caírem e se misturarem ao arroz.”



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