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Dona Laura | Parte 1

  • Foto do escritor: Maggie Paiva
    Maggie Paiva
  • 26 de set. de 2022
  • 3 min de leitura

Atualizado: 19 de out. de 2022



Há dois meses, eu comecei a morar em um condomínio pela primeira vez.

Dois dias depois, eu conheci a dona Laura.

Dona Laura é uma senhora de 74 anos, que também acabou de se mudar para o prédio. Ela foi morar com a filha, pouco tempo depois de perder o marido para um câncer e perceber que, àquela altura de sua vida, não conseguiria mais aprender a viver sozinha.

Dona Laura e eu temos vidas e histórias diferentes, mas um ponto em comum em nossas rotinas. Às 18h, quando estou chegando do trabalho, ela está voltando de sua caminhada vespertina, recomendada pelo médico.

No início daquela noite de segunda, eu estava pegando meu jornal com o porteiro quando ela perguntou:

“Com licença, moça, mas em que torre você mora?”

Não havia nenhuma outra pessoa na eclusa e eu percebi que a senhora de cabelos brancos e curtos, óculos redondos e uma aparência amistosa e simpática, falava comigo.

“Na torre 2, senhora”, respondi.

“Para que andar você vai?", continuou.

“Para o vigésimo segundo.”

“O último andar, que ótimo.”

A senhorinha interrompeu o pequeno interrogatório e ficou olhando para os lados, como se procurasse ou esperasse por algo ou alguém, esfregando as mãos na calça azul, estampada com grandes flores brancas.

Eu já estava abrindo o portão para seguir o meu caminho quando o porteiro daquela noite, Vítor, falou:

“Tudo bem, dona Laura. Essa daqui é gente boa.”

Pareciam ser as palavras que ela precisava.

“Sabe o que é, minha filha? Eu moro no segundo andar só, mas eu tenho medo de andar de elevador. Morro de medo mesmo. Será que eu posso ir com você?”

Dona Laura e eu caminhamos de braços dados, como velhas amigas, com ela me contando sobre sua vida e eu escutando com genuíno interesse. Ela falou sobre seu marido, Santiago, sobre a batalha que ele havia travado contra um câncer no pâncreas e sobre a história de amor de 52 anos que os dois viveram.

Falou sobre sua única filha, Marília, que, antes de sair do trabalho, sempre ligava para saber se a mãe já havia voltado para casa. Descobri que, todos os dias, dona Laura ficava na portaria, abordando cada morador que chegava, até encontrar um que morasse na mesma torre, mas em um andar acima do dela.

“Às vezes, até aparece, mas não quer que eu vá junto. Fazer o que né, minha filha?”

Logo, dona Laura e eu percebemos a coincidência em nossos horários. Ela parou de se aproximar de qualquer morador que chegasse e passou a esperar sempre por mim. Segundo ela, ninguém ficou mais feliz com o arranjo improvisado que sua filha.

Marília vivia preocupada com a mãe, sugerindo que ou dona Laura parasse com as caminhadas ou fosse acompanhada de uma cuidadora contratada.

“E eu lá preciso de cuidadora, menina? Sou nova, lúcida… Não consigo mais subir escada nessa idade, mas sou mais forte que você, com certeza. Só tenho medo de elevador mesmo. Uma vez eu fiquei presa em um, em outro prédio que a minha filha morava, aí pronto”, contou certa vez.

Eu me apeguei à previsibilidade daquele momento dos meus dias. Era descer do táxi e dar o braço à dona Laura, para conversar sobre a vida por alguns minutos, até vê-la descer no segundo andar, sempre com as mesmas palavras.

“Obrigada, minha filha. Se cuide.”

Quando os relatos sobre o presente chegaram ao fim, dona Laura passou a me entreter com suas histórias do passado, que sempre começavam com “Santiago e eu”. Um dia, a romântica incorrigível que há em mim não se segurou.

“Como ele e a senhora se conheceram?”

A senhorinha deu um profundo suspiro e perguntou:

“Se eu for contar, vou ter que contar a história toda. Vai querer ouvir, minha filha?”.

Eu queria.


 
 
 

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