#DesafioDeOutubro1 - Uma memória feliz
- Maggie Paiva

- 1 de out. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 19 de out. de 2023
Quando começamos realmente a escrever algo? Quando digitamos ou desenhamos as primeiras palavras? Quando começamos a pensar no que contar dentro de um tema? Ou quando acessamos a memória, a palavra ou o que for que vai culminar nas primeiras e, por fim, em todas as linhas?
Difícil dizer, talvez seja diferente para cada pessoa, para cada escritor. Pra mim, gosto de pensar que é a terceira opção. E, talvez por isso, é que é tão divertido e, ao mesmo tempo, tamanha pressão vasculhar os canais da mente em busca daquilo que eu já vi, pensei ou vivi, e que vai render uma escrita, uma crônica, um conto, um poema.
Mas, verdade seja dita, sigo aqui divagando, já em um terceiro parágrafo, porque não consigo encontrar uma memória feliz para escrever a respeito. Não que eu não tenha ou tenha poucas memórias felizes. Eu tenho muitas, o suficiente, acredito. Mas hoje, no entanto, nenhuma está me inspirando verdadeiramente.
É isso, eu sou esse tipo de escritora, a que espera pela inspiração. Esse é, sem dúvidas, um grande debate entre escritores de maneira geral: esperar pela inspiração para escrever ou escrever por disciplina e vontade? Não existe uma resposta certa, pelo menos é como eu penso. Existe algo que funciona melhor para cada um na maior parte do tempo. Para mim, é aguardar a inspiração, que não, ainda não deu as caras.
Neste quinto parágrafo, vou contar um fato sobre mim. Eu gosto de divagar. E, como um fato bônus, eu gosto de escrever sem ter um objetivo ou um destino claro para aquilo que estou escrevendo. Isso explica porque eu estou aqui escrevendo sobre nada e sobre algo ao mesmo tempo, não explica?
Para mim, poucas coisas são tão satisfatórias quanto escrever sobre nada. Quer dizer, é emocionante sentir as suas sinapses neurais acontecerem ao mesmo tempo em que seus dedos digitam ou sua caneta desliza pelo papel. Eu me arrepio só de pensar nisso, enquanto, na verdade, o faço. Não sei qual é a sensação para outros escritores, mas para mim é adrenalina pura. Algo como pular de paraquedas. Eu nunca pulei de paraquedas, mas imagino que seja bem parecido.
Porém, será que essa adrenalina não me preenche sempre que eu estou escrevendo, ou só mesmo quando estou escrevendo sobre nada? Não sei dizer, sequer me arrisco, o que é engraçado, porque essa deveria ser a pergunta mais fácil dessa sequência de divagações. A manifestação da adrenalina da escrita não é subjetiva, é um fato.
Ou, talvez, isso seja uma grande mentira.
Outro fato sobre mim: eu já quis (muito) parar de escrever. De vez. Para sempre. Me dá uma leve vontade de chorar ao pensar nisso. Eu comecei a escrever com 8 anos de idade e, de lá para cá, já me iludi e desiludi com a escrita; já achei que escrever era tudo para mim e já achei que estava me enganando; já achei que eu não era e nunca seria boa o suficiente; já achei que eu era incrível, mas nunca seria reconhecida.
E, ocasionalmente, tudo isso ao mesmo tempo.
Uma pergunta: uma honestidade como essa do último parágrafo é mais desconfortável para o escritor ou para quem o lê? Isso sim é subjetivo, não há fatos aqui. Eu até parei um pouco para proporcionar um profundo suspiro ao meu corpo e à minha mente. Vamos dizer que esse é um assunto delicado.
O ponto é que eu não parei de escrever. Nunca. Nem quando eu fiquei longos meses sem escrever uma frase que fosse, eu não havia parado para sempre, eu sempre sabia que voltaria. Por quê? Porque, quanto mais eu penso no assunto, mais eu acredito que escritor é uma coisa que você é ou não é. E, no caso, eu acho que sou, mesmo quando luto contra isso.
Eu não consigo fugir da escrita para sempre, não de vez, não longe o suficiente. Ela sempre me encontra. Um único descuido e estou rimando, divagando, pensando, escrevendo. E quando o reencontro acontece, é sempre igualmente emocionante, tenham se passado 24 dias ou 24 horas.
Então, eu me dou conta: escrever é algo tão forte em mim, que nem eu poderia tirar isso de mim mesma. E me conformo, pelo menos até a próxima crise.
Talvez, você pense que essa é uma visão idealista e romantizada demais sobre o ofício da escrita. Mas aí vai outro fato sobre mim: se, um dia, eu perder essa visão, terei perdido uma grande parte de quem eu sou. Aí pode ser que eu deixe de escrever. E eu não sei quem eu seria sem isso.
Mas tudo bem, eu não preciso que você ou ninguém concorde comigo, nem em gênero, nem em número, nem em grau, nem nada. Essa visão é minha, não pertence a mais ninguém neste mundo inteiro, mesmo a quem pense parecido. É minha e assim permanecerá até o dia em que meus últimos escritos preencherem minha própria lápide.
E o que pode ser mais idealista ou romântico do que concluir que, mesmo após minha morte, eu continuarei sendo uma escritora? Não escreverei mais, não terei mais vida, mas ninguém poderá dizer que eu terei deixado de ser o que sou, o que faz de mim, eu.
Ufa. Quase não respirei ao longo dos últimos parágrafos. Ficou intenso, eu sei, senti. A paixão é intrínseca ao escrever.
Um último fato sobre mim, sobre quando eu escrevo a respeito de nada: eu não quero e não sei como encerrar o texto. Mas creio que este está ficando por aqui, como, inevitavelmente, sempre acontece.
Eu deveria ter escrito sobre uma memória feliz, mas, só agora, me dou conta, que a memória feliz é esta. Ela aconteceu enquanto eu a buscava nos corredores das minhas ideias.
Comecei e encerro esse texto sem uma gota de inspiração no meu corpo, o que vai muito na direção oposta do que eu acredito, faço e sou enquanto escritora. No entanto, enquanto as últimas palavras se aproximam, perceba: o texto está escrito.
E, ainda que eu seja uma escritora-que-espera-pela-inspiração, eu escrevi sem a dita cuja, por disciplina ou por vontade. Eu não sabia onde esse texto ia chegar e certamente não sabia que seria aqui, a isso.
Mas essa é a minha memória feliz.




Comentários