#DesafioDeOutubro30 - Uma metáfora para a vida
- Maggie Paiva

- 31 de out. de 2023
- 5 min de leitura
Moacir, o mosquito, acordou cedo naquela manhã.
Era uma sexta, quinto dia útil daquela semana e Moacir estava com sono, com tanto sono que acordar foi puramente automático. O despertador tocou e seu corpo se posicionou sozinho na beira da cama de palha. À noite, ele era controlado pelo sono; pela manhã, ele era controlado pela consciência de ter que trabalhar e receber o salário no final do mês. Só não era, nunca, controlado por si próprio.
Moacir, o mosquito, foi o segundo a chegar ao trabalho e se deu ao luxo de sentar à sua mesa por cinco minutos antes de ter que sair para cumprir as funções externas. Era o quinto dia útil e Moacir estava cansado.
Pouco a pouco, conforme o ponteiro dos segundos se arrastava, outros mosquitos chegavam ao escritório. Alguns sorridentes, alguns mais sérios, alguns com o rosto quase tão fechado quanto o de Moacir.
Logo, a sala que Moacir dividia com tantos outros mosquitos estava preenchida dos sons rítmicos dos ponteiros de relógios se arrastando, somados ao som de papéis sendo carimbados, em sua maioria por trabalhadores novatos. Os novos eram muito úteis no trabalho de escritório, apenas pelo fato de que eram muito novos e inexperientes para o trabalho externo, que cabia a funcionários antigos, como Moacir.
Um dia, Moacir foi novo e achou que o trabalho externo, para além das portas do escritório, seria o ponto alto de sua vida de mosquito. Achou que devia viver em função do momento em que seria suficientemente experiente para ser um dos que sairiam em fila para fazer o que era feito do lado de fora, fosse o que fosse.
Naquele momento, Moacir gostaria de ainda ser um dos passavam o dia inteiro sentados à mesa, com os grandes olhos curiosos em direção à porta fechada. Talvez ela estivesse sempre fechada de propósito. Se os mosquitos jovens e cheios de sonhos soubessem o que os aguardava atrás dela, talvez desistissem. Talvez não alimentassem sonhos. Talvez não trabalhassem ali.
Talvez seguissem o caminho de Márcio, o mosquito que costumava sentar ao lado de Moacir.
Não havia uma versão oficial, mas circulou por algum tempo no escritório a história de que Márcio encontrou uma vida para além da porta. Ficou por lá e nunca mais voltou, nem para sua casa nem para o escritório. Com o tempo, a história precisou morrer e qualquer um que fosse visto falando sobre ela parava de ser visto no dia seguinte, totalmente.
Moacir, o mosquito, levantou quando percebeu que poderia se atrasar para o trabalho externo. Tinha pelo menos 300 braços para picar até a hora do almoço, sem falar na cota de sangue que deveria sugar para cumprir a cota individual. Suspirou só de lembrar.
A porta se abriu minimamente para ele e outros tantos funcionários e Moacir viu, talvez pela milésima vez, o escritório que se estendia atrás (ou seria à frente?) dela, muito semelhante àquele em que ele mesmo trabalhava, mas muito maior, com pessoas no lugar de mosquitos. Era como se o escritório de Moacir fosse um planeta, enquanto aquilo era o Sistema Solar inteiro.
Moacir, o mosquito, trabalhava ali há tanto tempo, mas nunca se livrava do medo ao atravessar o vão da porta. Além de repetitivo, o trabalho era perigoso. Ele mesmo nunca havia estado em uma situação de perigo, mas ouvia falar e sabia de companheiros que nunca atravessaram o vão de volta porque acabaram presos em poças de água, copos de café e, ele tremia só de pensar no nome, mata-mosquitos elétrico!
Moacir era bom no que fazia, cumpria o dever quase sem ser notado, ia além das cotas, tinha ótimos números, mas odiava o próprio trabalho. Muito antes de se tornar um picador profissional, o que ele queria mesmo era ser um polinizador. Voar de uma flor a outra, carregando pólen. Passou boa parte da infância sonhando com isso, fazendo planos com o melhor amigo, Abel, a abelha.
Mas seus pais nunca deixaram e nunca deixariam, insistiram e pressionaram até que Moacir passou no concurso e conseguiu o emprego onde estava agora. De acordo com os pais, sendo um mosquito, Moacir deveria ter uma única aspiração na vida: picar.
Polinizar era para beija-flores e abelhas. Mas Moacir cresceria, colocaria um terno e seria um picador profissional, como seu pai e seu avô antes dele. Não havia sonho mais bonito, nem (por coincidência?) mais fácil. Qualquer coisa além disso era complicado demais, desnecessariamente difícil, inútil e sem sentido. Moacir não precisava ser diferente, Moacir precisava ser um mosquito e fazer o que mosquitos faziam.
Moacir, o mosquito, queria dar orgulho aos pais e seguir fazendo o que os mosquitos faziam, não que acreditasse que havia outra opção para ele. Mas era infeliz e, às vezes, se pegava olhando pelas poucas janelas que encontrava, esticando o pescoço até enxergar as flores, se imaginando lá fora, com outras roupas, outras funções. Talvez até sendo outra coisa, porque afinal nem era isso tudo ser mosquito.
É claro que não dizia isso em voz alta. Qualquer um que ouvisse o olhava torto, quando não fazia algum comentário terrível, que sempre envolviam xingamentos a respeito. Moacir compreendeu, depois de cair muitas vezes nos mesmos erros, que tinha ideias que poderiam coloca-lo em problemas. Aprendeu a guardar suas ideias para si e, de tanto ficar calado, parecia que era o que ele sabia fazer de melhor, além de picar e bater cotas.
Calado, Moacir se tornou cada vez menos importante, invisível. Desempenhava bem sua função, era elogiado, era necessário e era isso que importava. Mas ninguém se importava com um mosquito olhando pela janela, se imaginando cheirando as flores.
Diante da imensidão que parecia haver para além daquelas telas de vidro, Moacir imaginava se não haveria um "além" para além do próprio trabalho, algo que não contassem, como não contavam o que havia depois da porta. Mas talvez fosse algo bom, muito bom.
Talvez fosse lá que Márcio, o mosquito, estivesse. Talvez o colega de Moacir houvesse descoberto uma maneira de sair do trabalho, do escritório, dos quartos cinzentos e alugados que os mosquitos podiam pagar nas casas dos humanos. Moacir queria ter coragem de saber e fazer o que Márcio fez.
Moacir queria saber o segredo, queria saber o que mais havia além de seu conhecimento. E era nisso que pensava quando viu outro colega, Pedro (o pernilongo), prestes a ser esmagado por uma mão enorme que se aproximava.
Era a primeira vez que Moacir via algo do tipo, tão imenso, tão perigoso e assustador. Moacir conheceu mosquitos que tiveram aquele fim, mas mesmo assim, não conseguiu ficar longe. Pedro estava prestes a ser pai...
Moacir, o mosquito voou o mais rápido que pode, de olhos fechados, na direção do perigo iminente. Sentiu Pedro se agarrando a suas patas e, logo depois, um barulho e uma rajada de vento que os mandou para longe! Ufa, a perigosa mão havia errado o alvo! Pelo menos daquela vez, estavam a salvo.
Moacir não prestou atenção onde pousou, mas, quando abriu o olhos, não sabia dizer onde estava. Era tudo tão claro, tudo tão colorido. Onde estava o cinza? Onde estavam as pessoas? Onde estavam os mosquitos?
"Vem, Moacir! Temos que voltar"
Pedro, o pernilongo, chamou a atenção dele e, atrás do colega, Moacir viu uma janela sendo fechada. Foi por ali que eles atravessaram! Pedro voava cada vez mais perto da janela, urgindo que Moacir o acompanhasse.
Sem pensar muito, Moacir tomou a primeira decisão que tomava por si mesmo em anos, sem nenhum medo e o primeiro sorriso que ele dava em muito tempo:
"Pode ir sem mim!"
Ele estava fazendo algo para o qual não havia recebedo nenhuma ordem.
No dia seguinte, os filhos de Pedro nasceram e ele não foi trabalhar. Ninguém notou a ausência de Moacir, cuja mesa era tão limpa e vazia, que mal parecia que alguém costumava realmente trabalhar ali.
De fato, Moacir não era alguém. Moacir era um mosquito, o que já havia sido decidido muito antes que ele, na verdade, fosse Moacir.




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