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#DesafioDeOutubro28 - Uma esquina marcante

  • Foto do escritor: Maggie Paiva
    Maggie Paiva
  • 29 de out. de 2023
  • 4 min de leitura


Querido Antônio,


esta é a última carta que escrevo a você. Talvez você fique aliviado de não saber mais sobre mim. Talvez lhe façam falta os elogios que eu o dirigia. Seja qual for a sua reação ao ler estas linhas, creio que nunca saberei, pois também não devo mais buscar informações suas por meio de nada ou ninguém.


Ficarei, querido Antônio, com a imagem que criei das últimas notícias que tive de você. Você deixando sua barba crescer, com o cabelo escuro chegando aos ombros, um menininho, tão parecido contigo, pendurado nos seus ombros.


A minha descrição para ao chegar na mulher que existe ao seu lado. Porque ela poderia ser eu, não é, Antônio? O menino poderia ser nosso. Os dedos que passam pelos seus cachos, te ajudando a pegar no sono depois de um dia de trabalho, poderiam ser os meus.


Que verbo triste, não é? “Poderia”. E pensar que nós tivemos tantas chances. E pensar que eu te dei todas as chances que eu podia. Ah, Antônio, eu esperaria por você a vida inteira, acreditando que tudo correria bem, do jeito que eu pensei e planejei. Eu nunca tive nenhuma dúvida de que isso aconteceria no tempo certo, de que você entenderia quem realmente te ama de verdade.


O problema é que o tempo não tem me feito nenhum favor. Se fosse só por mim, te juro, esperaria. Mas meu pai precisa de netos e eu, como filha única, preciso cumprir certos deveres. E você deve ter ouvido falar que o Márcio, da padaria, de repente, quer casar comigo. Mesmo depois de todos os rumores, que nós dois sabemos que são muito verdadeiros, ele vê em mim uma esposa, uma senhora, a mãe de seus filhos.


Eu é que não consigo imaginar estar com um homem que não seja você, Antônio. O casamento é amanhã e hoje eu passei o dia todo a derramar lágrimas como essas que caem no papel e mancham minha última carta ao amor da minha vida, a você.


Ah, Antônio, eu sei que, algum dia, você vai perceber que eu também era o amor da sua vida, que era pra ser nós, que sempre foi, desde aquele dia em que eu passei pela esquina e vi você colocando na porta da pousada da Fernanda..



Eu sei que não foi só o meu coração que palpitou diferente naquela tarde. Eu sei que você olhou pra mim do mesmo jeito que eu olhei pra você. E eu sei que nunca mais vou poder olhar para nenhuma outra pessoa do mesmo jeito, mesmo que eu faça tudo que eu tenho que fazer.


Sabe por quê, Antônio? Porque, pra mim, nada importa o que se passou desde então.


Não importa que você nunca quis sair comigo, mesmo eu te enviando cartas, presentes e ingressos para os jogos do Quixadá. Não importa que, um dia você começou a desfilar pra cima e pra baixo com a Marisa, filha da dona Conceição, costureira. Não importa que, 6 meses depois, a dona Conceição contou pra quem quisesse ouvir que a Marisa estava de bucho e vocês iam se casar. Não importa que, no dia em que eu fui pessoalmente te dar uma colcha como presente de casamento, você tenha dito que nem me conhecia e que não queria presente nenhum. Não me importa que o seu Chico, o leiteiro, tenha visto você rasgar uma das minhas cartas, sem nem ler, na hora que recebeu.


Nada disso importa, Antônio, porque, no fundo do meu coração, eu sei que nascemos um para o outro e, assim como eu tenho certeza disso, uma hora você vai perceber também. Agora, que pena, quando você perceber, vai ser tarde demais. E eu já vou ter firmado meu compromisso com o Márcio.


Você me conhece, Antônio, eu não quebro meus compromissos. Talvez seja por isso que esteja sendo tão difícil terminar com você agora. Porque desde aquele dia em que eu parei na esquina, eu tenho pra mim que nosso amor é eterno. E eu me comprometo a amar você, e apenas você, até o dia em que eu der meu último suspiro.


O Márcio sabe disso, viu? Eu contei pra ele para ver se ele desistia do casamento. Nem pensou uma segunda vez. Aquele ali quando decide uma coisa, tá decidido e pronto. Talvez a gente até se dê bem, porque eu também sou assim.


Falando no Márcio, ele construiu uma casa em cima da padaria, soube? Vai ser onde eu vou morar com ele. E se eu te disser, Antônio, que a janela da sala dá justinho para a porta da pousada? Tomara que eu me lembre de fazer minhas coisas, porque vou querer passar o dia todinho olhando pra você.

Eu vou ficar olhando para ver você receber essa carta, minha última carta, falando o quanto eu amo e vou sempre amar você. E como eu não tenho muitas forças de mim mesma, Antônio, se você me der um sinal, eu quebro só esse compromisso.


Rasga essa carta na calçada que eu te escrevo mais outras tantas.

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