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#DesafioDeOutubro9 - Uma experiência triste

  • Foto do escritor: Maggie Paiva
    Maggie Paiva
  • 10 de out. de 2023
  • 6 min de leitura


Elisa levou a mão ao dedo anelar esquerdo, em um gesto involuntário.


E só quando seus dedos não tocaram mais do que sua pele, foi que ela percebeu, ou lembrou, que a aliança já não estava lá.


Tantos anos usando a aliança de casamento como uma espécie de pára-raios de seu nervosismo, apenas para não tê-la em sua mão no momento em que mais precisava daquele movimento quase automático.


Ela devia ter escolhido uma outra mania, ou pelo menos um outro objeto para girar entre seus dedos, nos momentos em que precisava organizar as próprias ideias e focar no presente.


Agora, no entanto, era tarde para essa epifania ― “exatamente como as epifanias tendem a acontecer”, ela pensou, com desdém ― e com sua advogada sentada à sua frente, tão calma como alguém prestes a fazer uma lista de compras, o seu nervosismo apenas aumentava.


― É claro que está calma, não é ela que está prestes a concretizar um divórcio.


― O que você disse? ― A advogada perguntou e Elisa percebeu, talvez um pouco tarde demais, que havia manifestado seu pensamento em voz alta.


― Nada, eu só estava pensando em voz alta ― ela justificou, ajustando o terninho ao redor do seu corpo. Talvez aquela pudesse ser a sua nova mania, no final das contas.


Seria tão engraçado compartilhar tanto aquela situação quanto aquela última ideia com Ricardo, não fosse o fato de os dois estarem de lados opostos daquela mesa, literal e metaforicamente falando.


“As ironias do destino”, ela pensou, se certificando de não falar em voz alta desta vez.

É claro que “literalmente” era mais uma força de expressão. Para variar, o marido (em breve, ex-marido) estava atrasado para o encontro entre eles e os advogados.


Até ali, o divórcio havia sido relativamente amigável. As brigas não haviam aumentando tão além das brigas que os dois vinham tendo como marido e mulher.


Decidido, Ricardo havia se mudado do apartamento que os dois dividiram pelos últimos 7 anos na mesma noite em que decidiram se separar. 5 minutos depois de ele sair na chuva, com uma mala de couro que havia ganhado de presente dela, Elisa decidiu tirar e guardar a aliança.


Como pessoas e como parceiros, os dois podiam ter sido (e ser) muitas coisas, mas nunca foram de voltar atrás em suas decisões. E diante da primeira decisão na qual concordavam em bastante tempo, não havia motivos para adiar e constatar a nova realidade com a qual teria que se acostumar: Elisa, agora, era uma mulher solteira. Ou melhor, divorciada.


Então, corações partidos, lágrimas no travesseiro, potes de sorvete na lixeira, ódio a comédias românticas… Elisa havia passado por todas as etapas entre a noite da separação e aquela manhã em que o divórcio seria concluído, mas viver um divórcio estressante, com brigas por objetos estúpidos, não havia sido uma delas.


Se havia, no entanto, uma razão concreta para o nervosismo de Elisa, era o fato de que aquela era a primeira vez que ela veria o marido (“ex”, ela se corrigiu) desde aquela noite. Não que eles tivessem simplesmente deixado de se falar.


Por mensagens e telefonemas, os dois, de forma até muito madura, resolveram diversas questões importantes. Elisa ficaria com o apartamento, Ricardo com o carro. O dinheiro que acumularam juntos seria dividido igualmente entre os dois.


Até o destino de Frederico, o gato que adotaram juntos para celebrar o primeiro mês de casamento, havia sido decidido. Ele ficaria com o pai, no caso, com Ricardo. E Elisa poderia ficar mais sentida com o fato de que o próprio animal ficaria bastante feliz com aquela decisão em particular, se não fosse o fato de que ela preferia cachorros.


Elisa e Ricardo só não haviam decidido o que fazer com as alianças. E tendo sido casada apenas aquela vez, ela não sabia realmente que destino aqueles objetos cheios de significado tinham quando um casamento acabava.


Quando seu pai morreu, cerca de 15 anos antes, a mãe de Elisa havia guardado a aliança do marido. Ela não a usava e não a mantinha exposta de nenhuma maneira, mas a filha sabia que a aliança seguia guardada em uma caixinha, na gaveta de meias.


Aquela situação, no entanto, era diferente. Não havia sido um ataque cardíaco fulminante que acabara com seu casamento, mas sim a decisão dos dois. Elisa não tinha a menor ideia do que Ricardo havia feito com a própria aliança, mas sabia que ele não iria guardá-la.


Sobre a dela, a dúvida persistia. Deveria devolver? Jogar no mar? Enterrar em algum lugar igualmente significativo? Queimar e transformá-la em parte de um bonito colar que valorizaria seu busto e a ajudaria a conseguir um novo namorado? Eram muitas opções.


Naquele momento, porém, tudo que Elisa queria era que a aliança ainda estivesse no seu dedo. Não porque estivesse com alguma dificuldade metafórica de encerrar o casamento, mas porque estava sentindo muita falta de girá-la para se distrair do próprio nervosismo.

Talvez ela pudesse comprar um anel.


“Não, eu não estou repensando ou me arrependendo do fim do casamento.”, Elisa pensou.

Recentemente, ela havia lido em um livro que o fim de um casamento não era algo triste. O divórcio era apenas um papel, praticamente um contrato (e olha que, no trabalho, ela assinava muitos deles).


O que realmente era triste, na situação, era o fim de uma história de amor, não do casamento em si.


Quando a ideia de separação passou, pela primeira vez, por sua mente, o que Elisa fez, antes mesmo de falar com Ricardo sobre o que estava sentindo, foi pensar se ficaria triste pelo fim da sua história de amor ou pelo fim do casamento.


Ela entendeu que a história de amor já havia acabado antes, embora não soubesse exatamente quando, ao se dar conta que o que aconteceria seria apenas o seu divórcio.

Algumas semanas depois, ela e Ricardo conversaram e decidiram juntos pela separação de seus respectivos destinos e poucas decisões em sua vida, até aquele momento, haviam parecido tão inevitáveis.


Sem a aliança no dedo, Elisa continuou circulando a pele cada vez menos marcada. Poderia continuar com o hábito se não soubesse que aquela marca iria embora em algumas semanas ou meses. Por que adquirir um hábito do qual ela teria que abrir mão em algum tempo?


Será que, se as pessoas soubessem que um casamento vai ter fim, elas entrariam neles mesmo assim? O intervalo de tempo entre o “sim” no altar e a assinatura do último documento juntos valeria a pena? Será que as pessoas amariam, com todas as suas forças, se soubessem que vão ter que dizer adeus depois de algum tempo?


Não, a pergunta era outra: Será que ela, Elisa, teria amado Ricardo com todas as suas forças se soubesse que eles iriam se divorciar depois de sete anos de casamento?


E sua mãe, será que ela teria amado seu pai com todas as forças se ela soubesse que o marido morreria ainda jovem, deixando-a com três filhos pequenos e uma dívida da qual ela não sabia nada até poucos dias depois do funeral?


As duas situações eram tão diferentes, mas acabavam da mesma maneira: Com duas mulheres sozinhas e poucas respostas. Mas o fato de que a mãe mantinha a aliança do marido e Elisa estava quase decidindo por jogar a sua no mar era resposta suficiente, ainda que não diretamente para a pergunta na qual ela estava pensando.


Elisa precisava ligar para a mãe. Dona Marta estava tão preocupada desde que a filha informara sobre o divórcio. E ela gostava tanto de Ricardo que Elisa não sabia dizer por qual dos dois a mãe estava realmente triste.


Olhando para o relógio (“quarenta minutos atrasado”, pensou), ela visualizou o apartamento, vazio naquele instante, assim como o espaço em seu dedo onde a aliança costumava ficar.


Pensou que o tamanho, cuidadosamente escolhido para um casal e uma futura família, agora seria grande demais para ela. Pensou nos móveis que poderiam ocupar os espaços vazios e em como não teria mais que discutir pela escolha deles ou pelas compras feitas no cartão de crédito.


Havia instantes de consolos mundanos em sua nova vida, mesmo que isso significasse um espaço vazio também em seu coração. Esse, provavelmente, seria um pouco mais difícil de preencher e Elisa se perguntou se seria muito tarde para considerar uma guarda compartilhada de Frederico.


Foi pensando nisso que ela quase levou os dedos novamente ao antigo espaço da aliança, no mesmo instante em que a porta da sala de reuniões do escritório de sua advogada abriu.


E enquanto o advogado careca de Ricardo entrava, seguido pelo seu ex-marido (ela comemorou por um segundo o fato de ter acertado o título), Elisa pensou que, para serem preenchidos de novas coisas boas, espaços antigos precisam ser devidamente esvaziados.


É, sua aliança realmente ficaria melhor sendo jogada no mar.


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