#DesafioDeOutubro8 - Um rito de passagem
- Maggie Paiva

- 9 de out. de 2023
- 4 min de leitura
O 16º aniversário de Lucas estava chegando e, com o passar dos dias, o menino ficava cada vez mais assustado e ansioso.
Acontece que a vila do garoto tinha uma estranha tradição: todo jovem, fosse homem ou mulher, que chegava aos 16 anos era levado até a entrada da floresta mais densa dos arredores, onde deveria, em uma noite, sobreviver e encontrar algo.
O problema era que ninguém que adentrava a floresta sabia o que deveria ser encontrado e os que voltavam da aventura eram terminantemente proibidos de compartilhar informações, podendo sofrer até mesmo uma pena de morte.
Por anos, Lucas assistiu a irmãos, primos e amigos entrarem e saírem na floresta. Alguns voltavam felizes como se tivessem encontrado um tesouro, outros voltavam cabisbaixos e tristonhos e, em menor número, havia aqueles que nunca voltavam.
Pouco mais de um ano antes, a irmã de Lucas havia entrado na floresta na noite do próprio aniversário de 16. Nos primeiros raios de Sol da manhã seguinte, a garota entrou novamente na vila, com um enorme sorriso no rosto. Sem falar nada, ela deu um forte abraço no irmão mais novo e disse que tudo ficaria bem, porque Lucas era uma das pessoas mais inteligentes que ela conhecia.
Enfim, o dia de Lucas chegou e, depois de comemorar com a família, ele foi levado à entrada da temida floresta. Antes de deixar os pais e irmãos para trás, ele fez uma última tentativa de descobrir algo com a irmã:
“Você não pode mesmo me falar nada?”
“Eu não saberia o que dizer, essa jornada é toda sua.”
Lucas virou as costas e caminhou, com a estranha sensação de que não voltaria para casa.
Pensou nos amigos da vila que não viam a hora de completarem 16 anos para embarcar naquela aventura. Pensou no seu primo, e melhor amigo, que nunca voltou. Pensou em um colega específico que, até o dia anterior, ficou caçoando do medo crescente de Lucas.
Pensou em si mesmo e em como era considerado um garoto medroso na vila, incapaz de grandes feitos ou conquistas. Pensou em como teve que fingir, mais por sua família que por si mesmo, que não ouviu uma vizinha comentando com outra:
“Esse não volta.”
No último passo antes de se ver completamente sozinho na floresta, Lucas ouviu a voz de sua irmã:
“Está na hora. É o fim, Lucas!”
Lucas não entendeu o que ela quis dizer e logo se viu cercado por escuridão e frio. Caminhou sem saber para onde estava indo e, depois de alguns passos, viu uma luz que vinha do horizonte.
Seguiu a luz e, depois de alguns minutos, deparou-se com uma fonte de pedra, de onde brotava uma água que parecia brilhar. Lucas ficou tão hipnotizado pela visão, que até se esqueceu do medo. O sentimento, no entanto, voltou uma vez que uma voz, que parecia vir da água, começou a se comunicar:
“Olá, Lucas.”
O menino não conseguiu esboçar reação ou falar nada. Ficou olhando para os lados, tentando identificar de onde a voz saía. Mas, uma vez que ela falou novamente com ele, Lucas teve certeza de que vinha mesmo da água.
“Eu sei que você quer ir para casa. E não há razão para que você não volte logo. Portanto, vou ser direta. Vou dar a você um número, um período de tempo. Esse será o tempo que falta para que algo muito importante aconteça na sua vida. Se você acertar o que é, poderá ir para casa. Se errar, você morrerá. Entendeu?”
Lucas não tinha certeza se havia entendido, mas balançou a cabeça para cima e para baixo mesmo assim, sem saber por onde olhar, quase que automaticamente. Quando ele ia abrir a boca para fazer uma pergunta, a voz o interrompeu:
“Não fale nada sem pensar, Lucas. Eu vou dar o seu período de tempo. Antes de tentar adivinhar o que vai acontecer, você pode me fazer duas perguntas, para as quais eu só posso responder ‘sim’ ou ‘não’. Nenhuma dessas perguntas deve ser diretamente sobre o que vai acontecer com você, a pena para isso será a morte.”
Lucas respirou fundo e aguardou com paciência a única dica que receberia. A água brotou por mais um tempo da fonte antes de dizer:
“1 minuto.”
Esse era o tempo que Lucas tinha antes que algo muito importante acontecesse com ele? Aquilo não fazia o menor sentido! Que tipo de perguntas deveria pensar e fazer com aquela informação?
Apesar do frio, Lucas começou a suar e repassar em sua mente as últimas palavras de sua irmã. O que ela quis dizer com “é o seu fim, Lucas”? O garoto pensou pelo que pareciam ser horas, mesmo sabendo que tinha apenas alguns segundos.
Ao olhar novamente para a água, Lucas viu o reflexo assustado de seu próprio rosto, mas pensou em como estava ali apesar dele e uma súbita pergunta surgiu em sua mente:
“Você é o medo?”
A água borbulhou como se estivesse fervendo e respondeu que sim. Foi então que Lucas pensou ter entendido as palavras da irmã e fez sua segunda pergunta:
“Você é invencível?”
A água fez um barulho muito parecido com uma risada, antes de responder que “não” e perguntar ela mesma:
“O que vai acontecer com você, Lucas? Não esqueça, diga as palavras certas.”
“Eu vou…”, Lucas começou, com menos confiança. Poucas palavras o separavam de voltar para casa e, ao mesmo tempo, de encerrar sua vida ali mesmo. O garoto pensou na irmã, no abraço que ela deu nele quando voltou, nos elogios que o fez. Pensou nos olhos de carinho dela, vendo-o entrar na floresta. Pensou na expectativa dos amigos e familiares que perdeu ao longo dos anos. Pensou no peso que colocavam sobre ele.
Pensou em cada raio de Sol que viu da entrada da floresta e na quantidade crescente de memórias que se amontoavam atrás dele. E falou:
“Eu vou crescer.”




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