#DesafioDeOutubro6 - Um sonho recorrente
- Maggie Paiva

- 7 de out. de 2023
- 5 min de leitura
Rebeca não aguentava mais, estava ficando maluca.
Só isso explicava os sonhos estranhos que ela vinha tendo há uma semana. Era só cair no sono que a adolescente sonhava que estava no sonho de outra pessoa, nunca a mesma, mas sempre alguém que ela conhecia.
Nem sempre esses “sonhos invadidos” eram agradáveis e a impressão que Rebeca tinha era que as coisas estavam saindo completamente do controle.
Tudo começou quando ela sonhou com um garoto da escola, por quem, na verdade, ela nutria uma certa paixão. Apesar da surpresa do crush, logo eles estavam dividindo um sorvete, coisa que nunca aconteceria com os dois acordados.
Esse foi um sonho muito bom, daqueles que fazem uma pessoa desejar matar o despertador na hora em que acordam deles. E Rebeca poderia ter seguido sua vida tranquilamente se outros, com outras pessoas, não tivessem se seguido a esse.
Por alguns dias, a menina pensou que estava apenas sonhando com outras pessoas, mas logo percebeu a repetição de um estranho padrão. Sempre que entrava em um sonho, a pessoa que estava nele parecia ficar muito surpresa e quase sempre perguntava a mesma coisa: “O que você está fazendo no meu sonho?”
Rebeca não acreditava que estivesse realmente “invadindo” os sonhos de outras pessoas, isso era impossível. O que ela sabia era que vinha tendo sonhos muito estranhos e não aguentava mais. Acordava bem cansada quase todas as manhãs!
Uma vez foi perseguida por múmias ao lado do pai. Já esteve em uma montanha russa com a melhor amiga. Foi à inauguração de uma loja de roupas com a madrasta e até impediu uma prima de roubar um perfume no shopping.
Os mais estranhos foram os sonhos que ela teve com um garoto chamado Rodrigo, que simplesmente passava correndo - cem por cento pelado - pela cafeteria da escola, e outro com uma menina, de quem ela nem era amiga, que a entregava uma carta sem mais nem menos.
Mas o pior mesmo foi um sonho que teve na noite anterior. Nele, a menina estava na calçada da escola, esperando o pai ir buscá-la, quando a batida de um carro na esquina do prédio chamava a atenção de todos. De onde estava, Rebeca não conseguia ver quem estava no carro, que ficou bastante destruído, mas um arrepio percorria sua espinha ao perceber que era um carro azul, da mesma cor do carro do seu pai.
Foi um dos sonhos mais rápidos que Rebeca teve naquela semana, quando ela acordou, suando frio, o rádio-relógio mostrava que ainda era madrugada. Depois de se acalmar um pouco, ela conseguiu voltar a dormir e, finalmente, teve um sonho diferente. Neste, não havia outras pessoas e nem ela mesma, apenas um papel, no qual podia se ler uma data.
No entanto, quando Rebeca acordou, esqueceu completamente o último sonho e, apesar do pesadelo, despertou feliz, achando que não havia sonhado com mais nada e que os sonhos estranhos tinham acabado.
Naquele dia, quando chegou na escola, a melhor amiga de Rebeca, Sara, estava esperando por ela, animada e com boas notícias: os pais dela iam levá-la para uma viagem à Disney, como presente de aniversário, e Rebeca estava totalmente convidada.
Rebeca riu e contou sobre o sonho que teve com as duas em uma montanha-russa, o que Sara disse que só poderia ter sido um bom presságio. A menina concordou, mas uma estranha sensação se instalou no seu peito.
Na hora do almoço, uma mensagem desanuviou a mente de Rebeca. Nela, a madrasta dizia que ia buscá-la naquele dia, para que as duas pudessem passear juntas. Na fila da sobremesa, outro acontecimento melhorou ainda mais o dia da menina. O menino de quem ela gostava, Arthur, viu que ela estava no fim de uma grande fila e ofereceu o seu próprio doce a ela!
Rebeca não estava ignorando que os acontecimentos daquele dia eram parecidos, e ao mesmo tempo diferentes, dos sonhos que ela vinha tendo nos últimos dias. Mas como tanto as situações quando as notícias estavam sendo boas, ela até achava que os tais sonhos não tinham sido tão estranhos assim.
Mas a sobremesa durou menos do que ela gostaria, quando um menino da sua classe passou correndo e derrubou tudo na blusa dela. Rebeca percebeu que era Rodrigo, o menino de um dos sonhos, mas ficou mais aliviada do que qualquer outra coisa ao se dar conta de que ele estava vestido.
As coincidências continuaram, em algum nível, mas muitas outras coisas também aconteceram no restante do dia, então Rebeca simplesmente decidiu parar de dar atenção ao que quer que acontecesse parecido com algo que ela sonhou.
Na saída da escola, a menina já estava bem tranquila, conversando com a amiga alegremente e pensando que não veria nenhum carro azul naquela rua hoje, pois o carro da sua madrasta era vermelho.
Foi quando uma bola de papel amassado atingiu a sua bochecha. Irritada, Rebeca apanhou o papel e olhou ao seu redor para ver de onde tinha vindo. Uma menina da sua classe de quem ela definitivamente não gostava, estava rindo com o próprio grupinho.
Sem saber o porquê, Rebeca abriu o papel. Era o anúncio da inauguração de uma loja no shopping, marcada para aquele dia: 17 de outubro. Ao ler a data, foi como se uma venda tivesse sido tirada dos seus olhos e ela se lembrou do último sonho da noite anterior.
Na verdade, ela se lembrou de algo que vinha ignorando completamente. Os sonhos não aconteceram ao longo de alguns dias, mas de uma mesma noite! Só havia se passado um dia! Ela havia acordado durante a noite após cada sonho!
E se todos eles estavam acontecendo ao longo daquele dia, isso significava que…
Não, não era possível. Não era o seu pai que ia buscá-la naquele dia. As coincidências iam acabar, nada daquilo fazia o menor sentido! Rebeca parou de prestar atenção na conversa com Sara, nas risadas ao seu redor, em tudo e começou a suar frio. O papel jogado no seu rosto ainda estava em suas mãos e ela sentiu uma tremenda vontade de chorar, mesmo sem saber por quê.
A menina estava pronta para enrolar o papel e jogá-lo bem longe quando seu telefone vibrou no seu bolso. Na tela, a mensagem mais assustadora que ela poderia ter recebido veio do contato da pessoa que ela mais amava na vida.
“Oi, querida!
Eu sei que a Suzana ia buscar você hoje, mas ela precisou resolver um problema com a irmã e a sobrinha dela. Lembra a Vanessa? Parece que ela foi pega roubando a roupa de uma loja ou algo assim. Acho que mais tarde saberemos mais. Por favor, nunca faça algo do tipo, meu bem.
Mas não se preocupe, minha reunião com o time do Egito terminou mais cedo do que o esperado e eu já estou indo buscar você! Que tal tomarmos um sorvete?
Bjs,
Papai.”
Segundos (ou teriam sido minutos?) se passaram enquanto Rebeca apenas sentia lágrimas quentes molharem suas bochechas. Sua amiga a chamava, querendo saber o que havia acontecido, mas a menina não escutava ou via mais nada ao seu redor.
O som de uma freada, por fim, a despertou do torpor, e enquanto virava lentamente para olhar na direção do barulho, Rebeca sentiu o estranho frio na barriga que tem quem sonha que está caindo. Naquele momento, no entanto, ela estava acordada. Não estava?
O celular, caído no chão, começou a tocar a mesma música que Rebeca usava para acordar. Ao dar de cara com o familiar carro azul estraçalhado na esquina, a menina tentou, uma última vez naqueles últimos instantes, beliscar o seu braço.




Comentários