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#DesafioDeOutubro4 - Uma pessoa amada

  • Foto do escritor: Maggie Paiva
    Maggie Paiva
  • 5 de out. de 2023
  • 5 min de leitura


Amanda não reconheceu o nome ou o remetente da carta, mas, também, tinha coisas bem mais importantes para pensar naquele momento. Jogou a carta no fundo de uma gaveta e foi cuidar dos últimos detalhes para o funeral da mãe.


Semanas depois, quando a dor já havia mais ou menos assentado e a garota ensaiava um retorno à vida que conhecia, a busca por um documento foi a coincidência, enviada do destino. Debaixo de tantos papéis, a tal carta, há muito esquecida, seguia esperando ser aberta por Amanda.


Desta vez, ela a abriu e se deparou com algumas parcas linhas que, se fossem verdade, mudariam sua vida para sempre.


A vida de Amanda já havia mudado tanto, em tão pouco tempo, com a partida da melhor amiga e confidente que tinha na mãe… Mas aquele conteúdo não poderia ser ignorado, ele já havia mudado toda a forma dela de olhar para tudo que fazia parte de seu mundo.


As perguntas eram: sua visão seria permanentemente daquele jeito a partir de então? Estaria sua vida tão profundamente modificada após descobrir o que a carta dizia ser verdade?


Amanda não tinha como responder, mas não sabia como perguntar ao pai. Deitado na rede, no alpendre da cozinha, Heitor vinha tendo dias difíceis, lidando muito pior com a morte da esposa do que Amanda lidava com a partida da mãe. A filha sabia que não podia levar aquele assunto a ele naquele momento.


Nos dias seguintes, Amanda mal conseguia dormir, como um zumbi, perambulava pela casa, ajudando o pai com movimentos automáticos, falando pouco, comendo menos ainda, a curiosidade de saber preenchendo sua alma.


Frases como “eu sei que vai parecer mentira, mas juro pela minha vida que é verdade” e “o tempo é escasso para que eu possa te contar tudo”, pedaços da carta que ela já decorara, martelavam sua mente em uma dor de cabeça constante.


Enfim e por fim, sem mais conseguir viver sem uma peça do quebra-cabeça faltando, Amanda decidiu atender ao pedido do remetente: “venha me ver, na cidade tal, endereço esse…”.


Inventou para o pai uma viagem com uma amiga, tirou algumas notas de debaixo da cama, colocou roupas para poucos dias na mala e saiu, sem olhar pra trás. A viagem de ônibus durou horas que Amanda nem viu passar.


Chegou na cidade com o dia anoitecendo e alguma parte da sua mente, que parecia estar desligada até então, sorriu ao se dar conta do pôr do sol mais bonito que já havia visto.


A lua já brilhava no alto quando Amanda bateu na porta 334 e a mulher que atendeu, que parecia ter uns 50 e alguns anos e pareceu que tinha conhecido a garota por toda a sua vida, apenas a convidou para entrar e segui-la.


A situação ficava mais estranha a cada passo dado e Amanda já não tinha certeza ou segurança da escolha que havia feito. As duas passaram por um longo corredor, que parecia muito comprido para o tamanho da casa em si, até enfim chegarem a uma porta marrom, trancada a chave.


Quando Amanda passou pela porta, deu de cara com um cômodo que, em algum momento, deveria ter sido uma biblioteca. Estantes cheias de livros cobriam a maior parte das paredes. Em um dos extremos, havia um sofá de veludo vermelho e, no centro, um enorme tapete, rodeado de franjas, que só poderia ter vindo de um país bem distante.


No lado mais próximo à porta, no entanto, o ambiente ficava mais parecido com um quarto. Encostada à parede, havia uma cama de hospital, com lençóis azuis e todas as máquinas, cabos e tubos que deveriam haver em uma enfermaria de verdade.


Ligado a todas as máquinas, perdido em meio às dobras dos lençóis, estava um homem estranhamente familiar, embora Amanda tivesse certeza de nunca o ter visto na vida. A mulher que a acompanhava parou na porta e Amanda caminhou a passos lentos até sentar em uma poltrona ao lado da cama.


O tal homem abriu os olhos como se não parecesse estar no fim da vida e esboçou um sorriso para a visitante. Apesar da pressa que tinha para conhecer a verdade, ou uma das versões dela, ela esperou pacientemente que o homem - Érico, ela se corrigiu mentalmente - se recuperasse de um acesso de tosse e começasse a falar.


Como você deve perceber, eu estou morrendo. Não que isso seja uma surpresa para você, eu falei na carta. E se você está aqui, é porque a leu.


Amanda balançou a cabeça para cima e para baixo. E esperou, sem palavras, diante da confirmação de que havia sido realmente aquele homem que escreveu e mandou a carta a ela.


Todo aquele dia parecia um sonho muito estranho, no qual ela não acreditaria ter sonhado quando acordasse. Mas as próximas palavras de Érico Monteiro iriam transformar toda a sua vida em um pesadelo de mentiras.


Tudo que ela soube pelos últimos 20 anos, ou tudo que ela julgava saber, sobre si e sobre sua família, estava errado, havia sido um faz de contas com um propósito que ela não podia julgar conhecer.


Amanda, não há outra forma de falar isso, não com o tempo que eu tenho de vida…


Você é meu pai. Meu pai verdadeiro Amanda ousou completar.


Uma vez que as palavras saíram de sua boca, tudo pareceu muito claro e muito óbvio.

Ainda que muito mais velho, o homem na cama era muito parecido com ela - ou ela com ele, na verdade.


Dúvidas que Amanda enterrou nos fundos da mente e do coração voltaram à tona com uma onda surgindo do fundo do mar: por que a menina não se parecia com nenhum dos pais? De quem eram os presentes misteriosos que ela recebia nos seus aniversários e sua mãe nunca diziam de quem eram? O que sua mãe quis dizer pouco antes de morrer com “procure seu pai”, sendo que o marido estava ao lado da cama?


Questões que Amanda guardou a sete chaves, para não ter que pensar em nenhuma. Chaves que foram quebradas no dia em que ela leu a carta do seu suposto pai. Caixa que estava estraçalhada aos mil pedaços naquele exato momento.


Como se um botão tivesse sido apertado, uma memória antiga surgiu na mente da garota. Ela tinha uns 6 ou 7 anos e estava brincando na frente de casa, quando um carro preto estacionou há alguns metros. De dentro dele, um homem de terno, gravata e sapatos sociais desceu do banco de trás e foi em sua direção.


Não qualquer homem. Érico, muito mais jovem e bem menos magro, mas certamente ele.

Agachado diante de Amanda, ele perguntou se ela havia gostado do presente, um jogo de blocos que havia chegado pouco antes do seu aniversário, de ninguém em específico, como muitos dos presentes que recebia.


A menina estava prestes a dizer que era seu brinquedo preferido quando seu pai, Heitor, saiu de dentro da casa como um furacão e mandou que a menina entrasse e fosse para onde estava a mãe. Amanda obedeceu prontamente até que, quando passava pela porta, ouviu:


Eu aguento muita coisa de você por causa dela, mas não isso. Não você vir aqui como se tivesse algum direito. Eu estou cuidando bem da menina, da minha filha.


A Amanda criança nunca entendeu aquelas palavras e, com o tempo, apenas esqueceu aquela estranha visita. Ali, ao lado de Érico, no entanto, a memória voltou como se tivesse acontecido apenas ontem.


Pode ser que eu não viva tempo o suficiente, mas eu vou te contar tudo que você precisa.


Mais calma do que havia estado em semanas, com uma paz recém-descoberta em si mesma, segurou a mão de seu pai e falou:


Eu não tenho nenhum outro lugar para ir.


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