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#DesafioDeOutubro24 - Uma caminhada curiosa

  • Foto do escritor: Maggie Paiva
    Maggie Paiva
  • 25 de out. de 2023
  • 5 min de leitura


Àquela hora da manhã, a avenida principal era tão deserta quando se, naquela cidade, não houvesse uma alma viva. Em mais uma hora, mais ou menos, o caminho que descia para a praia estaria cheio de feirantes, barracas e pessoas em busca das melhores opções e preços para o almoço de domingo.


Tiago lembrou-se de quando era criança e frequentava as feiras de domingo com a avó. Se apenas ele soubesse antes o que sabia agora. Teria ficado mais tempo segurando a mão da única mãe que conheceu, ajudando a escolher a carne, procurando as frutas mais maduras.


Mas não. Cheio de energia como era, Tiago tinha que se desvencilhar da mão da avó tão logo visse as ondas quebrando na praia. O menino sumia pelo tempo que a avó precisasse para colher a comida, coberto de areia, suado das brincadeiras, mas com um sorriso que só não era maior que a extensão do mar no horizonte.


Vó Ilda não se preocupava com o Tiago de 8 anos, criava o neto com toda a liberdade. Ele ia até onde suas aventuras o levavam, mas sempre voltava, porque sabia onde e qual era o seu lar.


***


Tiago e Vó Ilda eram, um para o outro, tudo no mundo.


Em uma noite mais fria que o comum, no final de Outubro, Ilda, recentemente viúva, estava tirando uma sesta, enquanto o rádio tocava músicas de sua juventude. Foi acordada com fortes batidas na porta verde de madeira.


Era Fátima, sua única filha, com o neto de Ilda num braço e uma bolsa no outro. A mãe/vó rapidamente puxou os dois para dentro, murmurando alguma coisa sobre o bebê o sereno. Mas Fátima puxou-se para fora de novo. Foi quando Ilda percebeu que alguma coisa estava errada.


“Toma, mãe”, Fátima disse, entregando o filho nos braços de Ilda. “Fica com o menino por mim.”


“Mas por quê? Pra onde você vai com essa bolsa, Fátima?”


“Um amigo meu conseguiu um trabalho pra mim, mas é em outra cidade. Não posso levar o menino.”


“Que outra cidade, menina? Que história é essa? Você chega assim, de noite, no meio desse frio!”


“Eu tenho que ir, mãe! O Paulo foi embora, eu não tenho nada! Não posso depender da senhora para sempre. Eu tenho que ganhar dinheiro pra dar uma vida boa ao Tiago. Eu tenho que ir hoje, agora, mas eu volto, mãe! Eu volto pelo meu filho.”


Ilda mal estava entendendo algo. As palavras de Fátima não faziam nenhum sentido. Ela só sabia que, desde que o marido fora embora com outra mulher, a filha sofria para pôr comida na própria boca e alimentar o garoto.


Fátima aproveitou o silêncio confuso da mãe, deu um último beijo na cabeça de Tiago e partiu noite afora, fechando a porta verde atrás de si. Foi a última vez que Ilda e Tiago a viram ou ouviram qualquer coisa sobre ela.


Nos meses e anos seguintes, nada de cartas, postais, telefonemas e notícias. Até onde Ilda sabia e acreditava, Fátima estava solta pelo mundo. Ela só cuidou de dizer ao neto apenas o que ele precisava saber, o que não incluía a promessa que Fátima fez sobre voltar por ele.


Bastava que uma pessoa naquela casa vivesse com a desgraça daquela expectativa.


***


Com Vó Ilda, Tiago aprendeu tudo o que sabia. A cozinhar, costurar, se cuidar e, principalmente, a amar o mar. O maior sonho da vida do rapaz era embarcar em um dos barcos que saía do porto sem saber para onde ia, descobrir um novo mundo, novas aventuras.


A vó não gostava dessa conversa, não gostava que Tiago quisesse ir embora dali. Achava que o menino queria ir atrás da mãe mundo afora.


“E eu, pra ti, não basto, menino?”


Tiago desconversava. Depois que a avó colocou na cabeça que o menino queria atrás da mãe, nem adiantava explicar que ele não tinha nenhuma curiosidade sobre a mulher que o pariu. Do mundo, ele só queria incontáveis aventuras e histórias para contar quando tivesse a mesma idade da Vó Ilda.


Tiago caminhava devagar, como quem não ia a lugar nenhum, chutando pedrinhas ao longo do caminho.


“Bom dia”, um vendedor conhecido de verduras o cumprimentou. Tiago chutou uma pedrinha com mais força, pensando que a vó não compraria cebolas e batatas naquele domingo. Nem nunca mais.


***


Sozinho no mundo pela primeira vez, Tiago não sabia muito o que fazer, para onde ir, como estar ou simplesmente existir. Sem a avó, a quem amava mais que a própria, era como se ele fosse menos, menor do que fora a vida inteira.


Até seus sonhos perderam o brilho. O que acontecesse com ele, tanto fazia. Por dias, Tiago se sentiu como uma daquelas pedrinhas na avenida, sendo chutado para um lado e para o outro por quem passasse no caminho.


Até um outro domingo, há algumas semanas, em que Tiago estava passando por aquela mesma rua, passeando pela feira, como se, a qualquer momento, a vó fosse sair de uma barraca e pedir a ajuda dele para carregar as sacolas.


Tiago passou o dia inteiro perambulando entre a praia e a porta da casa onde agora morava só, mas a vó nunca apareceu, nunca chamou por ele, nunca pediu ajuda, nunca riu de seu jeito desengonçado, nunca perguntou o que ele queria almoçar. Nunca, nada, nunca mais.


O rapaz já estava prestes a repetir o caminho de volta para casa, para dormir até quando seu corpo aguentasse, quando ouviu os gritos. De um dos navios ancorados no porto, o que só poderia ser um capitão gritava a plenos pulmões que procurava jovens corajosos para compor sua tripulação.


A promessa não era das melhores. O navio estava indo para um país distante e a viagem poderia durar meses. A comida era pouca e o trabalho era muito. O mar era imprevisível e pouco confiável.


“Há alguma coisa boa nessa viagem?”, um rapaz perguntou há alguns metros de Tiago.


Os olhos do capitão se inflamaram antes que ele respondesse:


“A aventura!”


Fazia tempo que Tiago não pensava nos seus antigos desejos de aventura. Parecia algo que fazia parte dele em outra vida. Pensou na avó e em como ela detestaria que ele sequer cogitasse a ideia.


Como a Vó Ilda, pensou em todas as formas que ele poderia morrer no trajeto. De fome, de briga, de afogamento, de doença… Ele se perguntava o porquê de já ter desejado tanto aquela vida para si.


Virou as costas enquanto o capitão continuou falando, agora partindo para típicas histórias de marinheiro. A casa tinha ficado aberta e o plano de dormir o dia todo parecia cada vez mais aprazível.


Talvez conseguisse um almoço com o carpinteiro do outro lado da rua, mais uma vez.


***


O relógio da igreja da praça badalou, anunciando as 5 horas. Os primeiros feirantes chegavam para ocupar seus espaços, enquanto o Sol começava a nascer por trás das colinas da capital.


No porto, o capitão cuidava dos últimos detalhes para que o Dona Maria partisse, cortando as águas do Atlântico. Do lado de fora do barco, o primeiro imediato aguardava que um último homem corajoso (de preferência, mais corajoso que os anteriores) chegasse, respondendo ao chamado da semana anterior.


Para sua alegria, lá vinha um, descendo a avenida, caminhando a passos largos e decididos. Parecia o tipo de homem pelo qual o primeiro imediato esperava, ainda que bastante magro. Não tinha problema, ia servir, ia dar certo. Havia algo no seu rosto, algo que ele vinha esperando ver.


Quando o rapaz se apresentou, sem saber bem o que dizer, o próprio capitão perguntou:


“Qual é o seu nome, garoto?”


“Pedro. Pedro Tiago”, ele respondeu.


Capitão e primeiro imediato se olharam por um segundo e, de alguma forma, sabiam que era ele.

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