#DesafioDeOutubro2 - Um lugar querido
- Maggie Paiva

- 3 de out. de 2023
- 3 min de leitura
Aqueles eram os momentos preferidos de Olívia.
A cada dia, as horas de almoço não eram apenas um intervalo em mais um dia de trabalho, mas uma pausa em todos os seus problemas, dúvidas e mesmo pensamentos.
Mais que nutrição para o seu corpo, aquela parada de uma hora proporcionava nutrição para sua alma.
Não importava o quanto a mente de Olívia estivesse pesada, quantos problemas a esperavam no segundo turno do dia, o cansaço menos ainda.
Era passar pelo portal da livraria e Olívia virava outra pessoa. Uma pessoa mais leve, positivamente vazia, com um espaço infinito a ser preenchido de palavras, cheiros e sensações.
Olívia não era uma grande fã de rotinas, mas sem aquela era não podia viver sem: entrar na livraria, escolher um livro, sentar sempre na mesma poltrona preta e ler como se nada mais importasse, como se o tempo não passasse, como se a garota escapasse da realidade e viajasse para outras eras e outros mundos, mesmo que apenas por alguns instantes.
Não que Olívia não estivesse satisfeita com sua realidade, não tinha do que reclamar, na verdade. Mas seu grande sonho era conhecer o quanto fosse possível do mundo, tanto no real quanto no imaginado. E era nisso que ela trabalhava todos os dias.
Naquele dia, pretendia passar a hora passeando por um universo fantástico que há muito tempo não visitava, uma viagem extraordinária que acabou por esbarrar no mais ordinário dos poréns: não havia poltronas livres, nem mesmo a que ela costumava ocupar.
Olhando ao redor, parecia mesmo que a livraria estava mais cheia que de costume para aquele horário. Olívia olhou em todas as direções, mais de uma vez, segurando o livro junto ao peito, tentando ver o que havia deixado passar.
De fato, bem na entrada, havia um banner que não costumava estar lá; nele, Olívia descobriu que estava acontecendo o lançamento de um livro no segundo andar do local.
Seus olhos brilharam quando percebeu que se tratava de um romance, seu gênero preferido.
As amigas de Olívia costumavam brincar com o gosto da garota por romances literários.
A cada livro, a cada mocinho encantador, a cada história de amor e paixão”, elas diziam”, sua expectativa cresce, Olívia. Nunca vai viver uma história de amor sua, desse jeito. A realidade sempre parecerá simples demais frente às histórias. E os homens que conhecer nunca chegarão aos pés dos que você conhece nos livros.”
Olívia não se importava. Não acreditava que era incapaz de separar os romances da realidade. Nem achava que suas expectativas eram mais altas do que as que qualquer mulher deveria ter.
Ela só não estava procurando um romance para a própria vida no momento, portanto, nada lhe faltava e não havia prejuízo no que amava ler.
No segundo andar, a garota se deparou com um espaço quase vazio, de um evento que parecia estar chegando ao fim. Cadeiras estavam desocupadas e pessoas e mais pessoas desciam com seus livros nas mãos.
Viu, de longe, o autor autografar alguns dos últimos exemplares e se apressou para pegar uma cópia antes que se esgotassem. Na pressa, acabou esbarrando na mão do escritor, que deslizou em um rabisco sem sentido pela folha branca.
“Me desculpe!”, Olívia pediu, quase em um sussurro.
“Não tem problema”, o autor falou, sem olhar para ela. “Só acho que eu vou ter que ficar com esse pra mim, ninguém vai querer levar para casa um livro rabiscado.”
“Eu fico com ele”, Olívia falou, entusiasmada. “É um verdadeiro presente. Uma história para ler e uma para contar.”
“Nesse caso, ele é todo seu, como um presente mesmo. Para quem eu assino?”
“Olívia”, a garota respondeu.
“Não brinca! Esse é o seu nome de verdade?”
“Claro que é. Por quê?”
O escritor fechou o livro que tinha nas mãos e mostrou a capa para a garota. Em enormes letras cursivas, ela leu o título em voz alta: Olivia, como o nome dela.
“Sobre o que é a história?”, ela perguntou, a curiosidade crescendo em sua mente.
“É sobre uma garota que gosta muito de livros e, eventualmente, se apaixona por um escritor.”
“Pelo Henrique!”, Olívia quase gritou, sem saber de onde tinha tirado aquele nome.
“Na verdade, não”, ele riu. “O nome do personagem é Gustavo. Mas como você sabia meu nome? A gente se conhece de algum lugar?”
“Não, é só que eu li na capa”, ela mentiu.
A livraria ao redor deles ficava cada vez mais vazia e funcionários do lugar começavam a tirar as cadeiras do espaço do lançamento.
Olhando nos olhos do escritor, mergulhando em um azul profundo, Olívia já não sabia se estava lendo, sonhando ou vivendo a primeira página de uma história inesperada, mas enfim sua.




Comentários