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#DesafioDeOutubro17 - Um gesto inspirador

  • Foto do escritor: Maggie Paiva
    Maggie Paiva
  • 18 de out. de 2023
  • 5 min de leitura


— 5 com o Mateus…


Robertinho repetiu a contagem e a conta continuou dando a mesma. Não que isso fosse surpresa, nós 5 andávamos juntos há tanto tempo que seria estranho se não soubéssemos quantos éramos.


Mas naquela tarde em que precisávamos ajustar os detalhes do arranjo, era importante ter certeza de quantos estavam ali. E foi bem frustrante perceber que éramos um número ímpar.


***


Foi ideia da Alana nos separar em “casais” para a formatura.


— Para a experiência ser completa. — justificou.


Ninguém levou a sério no começo. Mas, conforme conversávamos, pareceu um daqueles desafios que tínhamos a mania de impor a nós mesmos. Podia ser divertido.


Como a maioria das decisões importantes que tomamos juntos, resolvemos aquela do jeito mais sensato possível: tirando no palito. O Mateus estabeleceu:


— Vamos fazer isso!


É claro que, apesar de ter passado a vida juntos, nenhum de nós estava preparado para o fato com o qual nos deparamos: Éramos 5. Alguém ficaria de fora.


***


Ninguém quis escolher, e acabamos decidindo por um sorteio. Foi só quando os papeizinhos já estavam cortados que o Robertinho constatou:


— O Mateus não pode participar do sorteio, vai que ele tira a Alana, que é prima? É nojento...


— E daí? Não é como se eles fossem virar um casal de verdade. — respondi.


— Meus pais são primos … — o Eric falou.


— Deve ser por isso que você é tão tapado — respondeu Robertinho.


— A gente não vai ter filhos! — disse Mateus.


— Cruzes, quando a gente começou a falar em filhos? — disse Alana, e todo mundo caiu na gargalhada.


Decidimos pelo mais simples: Mateus seria meu par, Alana iria tirar um papel com o nome do Robertinho ou do Eric e quem sobrasse iria sozinho.


Olhei para o Robertinho, tentando não identificar a ansiedade com que ele dobrava os dois papeizinhos, imaginando se o que ele sentia pela Alana tinha alguma coisa a ver com tirar o Mateus do sorteio. Eu fingia não ver, como fingi que fiquei feliz por ele e não por mim. Sem ter contado pra ninguém, eu vinha nutrindo pelo Mateus sentimentos muito parecidos.


E, enquanto pensava nisso, vi Robertinho suprimir a alegria quando Alana desdobrou o papelzinho com o nome dele. Eric ficou só, mas tinha um plano:


— Eu vou encher o saco de vocês a noite inteira. Vai ser a mais divertida de todas… Pra mim!


***


Entre o momento em que voltei para casa e a hora em que parei pra me olhar no espelho, passou-se uma semana. E, em cada momento, tentei ensaiar incontáveis vezes como - e se - falaria com Mateus, imaginando se ele já havia percebido alguma coisa.


Mas quando estávamos os cinco juntos mais uma vez, não éramos nada mais do que um grupo de amigos, sem ansiedade e medo. Tudo estava no lugar de novo.


Isto é, até chegarmos à festa, nos separarmos em casais e eu sentir o Mateus segurar a minha mão, vendo-o sorrir com aquele sorriso que acelerava o meu coração. E eu sequer sabia dizer onde tudo havia começado.


Em um dia, ele era meu amigo que gostava de batata frita com sorvete mais do que qualquer outra pessoa no mundo e passava as aulas de matemática lendo poesia. No outro, ele era a coisa mais fofa do Universo, com um sorriso apaixonante e uma voz que me fazia querer ouvi-lo falar o tempo inteiro… Eu estava perdida, bem perdida.


Achei que Mateus e eu ficaríamos em algum canto conversando como bons amigos. Mas ele acabou pegando minha mão novamente e olhando para o meu rosto. Era impressão minha ou ele estava nervoso?


Ele me conduziu para o meio da pista, onde começamos a dançar juntos ao som de Thinking Out Loud. Mateus riu, talvez pensando no número de vezes que eu já havia feito ele escutar Ed Sheeran, e ali eu soube que eu não conseguiria terminar aquela noite sem falar nada.


Seria ali na pista de dança? Ou eu deveria chamá-lo para um lugar mais silencioso? Onde fosse, eu precisaria lidar com a forma diferente com que ele olharia pra mim em seguida.


Meu corpo estava tenso e eu sentia as minhas mãos suando frio, além de uma necessidade enorme de sair correndo. E um segundo depois, foi exatamente isso que eu fiz.


***


Quando tínhamos 8 anos, fiquei chateada porque Mateus estava passando mais tempo com os meninos e, por ciúmes, falei que não queria mais ser amiga dele. Por uma semana inteira, ignorei sua existência.


Num sábado, minha mãe chegou em casa perguntando porque eu não havia dito que o Mateus estava doente.


— A Marcela disse que ele não sai da cama desde ontem. Não diz onde dói, não quer comer. E quando perguntam o que ele tem, só sabe dizer que alguém não quer mais falar com ele. Você sabe alguma sobre isso, filha?


Pelo tom da minha mãe, ela não só sabia a resposta, como estava decidida a me fazer ir pedir desculpas. Não que fosse necessário. Depois do que ela contou, eu me senti tão culpada que corri até a casa dele.


No quarto, dei de cara com um Mateus encolhido na cama.


Caí no choro, pedindo desculpas e contando que estava com ciúmes, que sabia que ele amava mais os meninos porque eles jogavam futebol e eu não, porque o Eric tinha um videogame e eu não e porque o Robertinho emprestava as revistinhas do irmão mais velho.


— Mas eu vi você primeiro! - Argumentei.


Foi preciso Dona Marcela socorrer duas crianças chorando abraçadas, soluçando a ponto de quase não conseguirem respirar. Ela falou como nossa amizade poderia ficar mais bonita ainda se fossemos honestos um com o outro. E embora nenhum de nós soubesse direito o que significava honestidade, naquele dia prometemos sempre contar tudo um ao outro.


— Se ficar feliz…


— Se ficar com ciúme…


Sem contrato assinado, selamos a promessa que moldou nossa amizade.

Mesmo assim, depois de todos aqueles anos, ali eu estava, escondida no jardim. E mesmo achando que estava sozinha o suficiente para chorar de frustração, eu ouvi os passos de Mateus se aproximando.


— Eu não vou ficar se você não quiser — ele disse.


Diante do meu silêncio, continuou:


— Você quer que eu chame alguém? O Robertinho tá com a Alana, mas…


— Por que eu iria querer que você chamasse o Robertinho?


Ele pareceu constrangido.


— Eu notei como você olha pra ele. Talvez você não queira falar comigo sobre isso.


— Eu não olho pro Robertinho! — Eu gritei. — Como você pode me conhecer tanto e ao mesmo tempo parecer não saber nada sobre mim?


— Você não está… Apaixonada por ele?


— Vamos deixar uma coisa bem clara aqui, Mateus. Eu não estou e não estaria nem em um milhão de anos apaixonada pelo Robertinho.


Foi impressão minha ou ele parecia aliviado?


— Nem em um milhão de anos? Ele não é tão ruim assim, vai.


— Eu não poderia estar apaixonada pelo Robertinho.


— Por quê?


— Porque eu tô apaixonada por você!


Um silêncio terrível se instalou entre nós. Do salão, vinha o som de música e risadas. Mas ali no jardim, apenas Mateus olhando pra mim de boca aberta, como se estivesse congelado:


— Você… Gosta… De… Mim?


Ele estava incrédulo. Não zangado ou simplesmente surpreso. Incrédulo.


— O que falei tá falado, mas se você estiver esperando que eu repita, pode tirar o seu cavalinho da chuva.


— Mas nós…


— Somos melhores amigos? Vamos estragar tudo?


— Nós prometemos contar tudo um ao outro.


— A gente tinha 8 anos. Além disso, como você conta algo desse tipo?


— Eu tô apaixonado por você.


— É, como se fosse simples assim.


— É só… Eu tô apaixonada por você, Lara!


— Já entendi! Você acha que é fácil…


— Não, caramba… Eu tô aqui tentando falar que eu tô apaixonado por você, Lara! O que eu tenho que fazer para…


Então, eu o beijei.


Meia hora antes, eu achava que só era importante o fato de eu estar gostando do meu melhor amigo. Agora, tudo o que importava era que ele também gostava de mim.


Nós havíamos mesmo prometido a honestidade.


E, conforme nossas línguas se conectavam e sentíamos o sabor um do outro, eu percebi que não havia jeito mais eficiente de, enfim, contar toda a verdade.


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