#DesafioDeOutubro15 - Um medo forte
- Maggie Paiva

- 16 de out. de 2023
- 4 min de leitura
Era estranho voltar à cidade depois de tanto tempo. Quanto mesmo? 14, 15 anos? Eu não estava contando.
Demorou um tempo, mas minha promessa estava finalmente cumprida: a cidade que praticamente me enxotou mais de uma década antes, agora me recebia para me homenagear como uma de suas filhas mais ilustres.
Por mais que o gosto da volta por cima fosse agradável como uma xícara de chocolate quente em um dia frio, eu não via a hora de passar pela cerimônia e voltar para o meu próprio lugar. Antigas cidades como aquela eram cheias de fantasma, e eu morria de medo de encontrar algum.
Verdade seja dita, o meu medo era de encontrar um apenas. Ele. O medo era tão grande quanto a vontade que eu tinha de olhar nos olhos dele mais uma vez, por um segundo que fosse. Mas se, por um acaso, eu o encontrasse, desviaria o olhar. A única coisa maior que a vontade de ver seu rosto de novo era o medo de que ele não tivesse me perdoado.
Uma vez que o carro entrou nos limites da cidade, cada homem por quem eu passava parecia ter o rosto, o cabelo, a altura, a cor dele. O fantasma que eu temia encontrar estava em todos. Nenhum deles, no entanto, tinha os seus olhos.
Com poucas exceções, tudo parecia tão igual ao que eu havia deixado. A mesma cidade pequena da qual eu havia saído. No meu coração, quase tudo parecia, também, a mesma coisa. A raiva, o medo, o amor, a dúvida. Tudo acordando e se misturando em uma única alma, como se nunca tivessem ido embora. E eu duvidava que tivessem.
No hotel, tratei de dormir para que o dia passasse mais rápido. Não foi difícil, eu estava cansada. Naquela cidade, não havia mais ninguém que fosse me dar alegria visitar. Quando acordei, no canto do olho, havia uma lágrima seca. Saudade dos meus pais? Vontade de seguir o caminho decorado até a casa dele? Será que ele ainda estaria morando no mesmo lugar?
Afoguei as ideias com um banho. Tinha que me concentrar. Naquela noite, pessoas que menosprezaram minha existência iriam me bajular e, colocando o medo de lado por algumas horas, eu iria saborear cada instante da festa.
E foi exatamente como aconteceu. A noite passou como um borrão, de risos falsos, bajulações fúteis, abraços gélidos e elogios ensaiados. Mas eu sorvi a cada um como se fosse verdadeiro, quente e genuíno.
Mesmo sendo o centro das atenções daquele evento, ali eu não tinha que me preocupar com o medo de encontrá-lo. Eu duvidaria muito que ele participasse de um momento como aquele. Talvez com outra pessoa, mas não comigo. Fui eu que fui embora.
Uma hora, finalmente, lá estava minha foto, preenchendo seu devido lugar na Academia de Letras da cidade. O presidente, pai de uma garota que estudou comigo, discursava sobre mim, sobre o sucesso dos meus livros e sobre a relevância de, obra após obra, eu continuar retratando aquela cidade de diferentes ângulos. Nem ele, nem ninguém ali, precisava saber o que ou quem eu buscava reencontrar em cada uma.
Depois do discurso do presidente, veio a minha vez. E eu havia preparado algo digno… bem, de mim. O brilho no meu olho aumentava conforme eu via as pessoas envolvidas pelo amor que eu declarava àquela cidade para quem pouco se ligava fora dela.
Eu não me importava se os sorrisos fossem falsos, se o encantamento fosse ilusório. Era para mim. Eu causava e controlava aquilo. Eu estava em cima, literal e metaforicamente. Eu havia vencido cada derrota que tentaram me impor. Por tudo isso, eu estava livre de tudo que aquelas pessoas, ou familiares e conhecidos seus, me causaram.
Mas estaria livre de tudo mesmo?
Na volta para casa, com meu cansaço sendo embalado pelas estrelas que lotaram o céu do interior, eu me permiti repassar e reviver alguns dos últimos instantes daquela noite. Com sorte, cairia em um sono tão pesado que sequer lembraria daqueles pensamentos quando acordasse.
Quando desci da tribuna, fui abraçada por um grupo de mulheres que reconheci dos tempos de escola. Nunca fomos amigas, mas elas tagarelavam sobre a necessidade de nos encontrarmos para beber e relembrar os velhos tempos. A essa altura, eu já estava suficientemente em paz para ceder ao desejo de ser ríspida ou fria com qualquer uma delas.
Não, elas conheciam a verdade tanto quanto eu. Se podiam dissimular, eu também conseguia. Naquele momento, ser superior a todos que tentaram pisar em mim era muito mais satisfatório.
Quando o evento terminou, para mim pelo menos, e eu já estava saindo do prédio, o meu medo mais forte tomou forma diante de mim. A forma dele. Pisquei algumas vezes para me certificar de que não era uma ilusão, como tinha acontecido o dia inteiro. E dessa vez não era.
Nem poderia, minhas ilusões tinham o mesmo rosto e corte de cabelo de quando ele tinha 16 anos. Mas quem estava na minha frente havia atravessado tanto tempo quanto eu, tinha linhas de expressão, o cabelo havia mudado, o aparelho havia ido embora. Quando ele sorriu, no entanto, eu percebi que havia detalhes dele que nunca mudariam e, inevitavelmente, eu sorri também.
“Não achei que você fosse estar aqui”, confessei.
“Eu vi você falando. Não poderia perder”, ele disse, com as mãos nos bolsos e uma distância segura de mim.
Desviei o olhar para os meus próprios pés, surpresa com a honestidade dele.
“De todas as pessoas dessa cidade, a última que eu poderia imaginar que iria querer me ver ou me ouvir falar sobre qualquer coisa que fosse seria você. Não depois do que eu fiz.”
“Já se passaram 15 anos. Eu não guardo mágoas.”
Só Deus sabia quanta coragem precisou correr pelo meu sangue para que eu tivesse dito aquilo. Em todos aqueles anos, eu sempre imaginei que, no dia que o reencontrasse, seria apenas para que ele dissesse o quanto me odiava.
Naquele instante, porém, seu olhar era doce, seu sorriso era sincero e sua expressão não denotava uma gota de raiva, mas de saudade e… amor? Devia ser, porque eu tinha certeza que a minha expressão era exatamente a mesma.
Eu nunca o procurei. Eu nunca voltei. Eu nunca perguntei. Por medo do que iria encontrar ou ouvir. Mas ali, naquele momento, com o meu olhar preso no dele, eu senti um peso invisível e gigante (que eu não fazia ideia que vinha me impedindo de respirar verdadeiramente pelos últimos anos) se desalojou do meu peito, indo embora em um suspiro.
“O que você achou? Do meu discurso.”
Ele riu.
“Da última vez que eu te vi, você ainda era tímida demais para falar em público.”
“Eu ainda sou, mas eu enfrento.”




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