Tudo é igual
- Maggie Paiva

- 10 de out. de 2022
- 5 min de leitura
Atualizado: 19 de out. de 2022
É claro que o táxi estava atrasado. Era a lei de Murphy aplicada à minha vida. Quanto mais atrasada eu estivesse para o trabalho, mais o carro do aplicativo iria demorar a chegar.
Fazia 15 minutos que eu deveria ter saído de casa e o motorista ainda estava a 5 minutos de distância. A demora aumentava proporcionalmente a minha irritação, enquanto eu imaginava se a reunião extremamente importante da qual eu deveria participar naquela manhã já havia começado.
Era na mesa oval, cercada por pessoas de terno bem engomados que me olhavam de cima a baixo e davam graças a Deus por não serem eu, que eu estava pensando quando um táxi parou no sinal vermelho, bem na minha frente.
Algo no rosto do motorista, tão sereno em meio a um trânsito que começava a ficar caótico, me fez desistir do carro do aplicativo e dar sinal, ao mesmo tempo em que me enfiava no banco de trás.
"Olá, eu sou Roberto. Para onde devo levar a senhora?", ele perguntou, numa tranquilidade alheia ao meu desespero.
Recitei o endereço, uma irritação crescente na voz.
Pobre Roberto, não era culpa dele e, talvez ciente disso, ele preferiu me ignorar, aumentando o volume do rádio no lugar de continuar a conversa que talvez pretendesse ter com mais uma passageira.
A introdução de A praça, que, diferentemente da maioria das pessoas da minha idade, eu conhecia tão bem, preencheu o ambiente do carro, circulando no espaço vazio entre o motorista e eu. Não demorou para que eu sentisse a raiva recuando, cedendo espaço a outro sentimento: a nostalgia.
Hoje eu acordei com saudade de você...
A voz de Ronnie Von era como veludo acariciando a pele e, enquanto me transportava rapidamente para outro tempo e outro lugar, a música me impeliu a cantarolar baixinho a letra que permanecia grudada na minha mente tantos anos depois.
Beijei aquela foto que você me ofertou...
Roberto, o motorista, que eu percebi estar murmurando a melodia, olhou para mim com um sorriso nos lábios e uma curiosidade nos olhos, como se eu fosse de outra espécie, o que, às vezes, eu achava que era verdade.
Esqueci a reunião, o trabalho, o atraso e tudo mais que estivesse enchendo minha cabeça nos últimos trinta minutos. Eu só queria conversar com alguém. E, naquele momento, esse alguém era o motorista do táxi que parou aleatoriamente em frente ao meu apartamento.
"Eu não pareço muito com alguém que você veria cantando essa música, não é?", perguntei.
Ele respondeu com uma risada.
"Deixa eu adivinhar. Eu pareço muito jovem? Talvez seja o piercing no nariz? Já sei: É o cabelo vermelho!
"Não, não é nada disso", ele disse. "Quer dizer, você não parece com alguém que frequentou muitas festas em 1967. Mas a pessoa, que eu conheço, que mais ama essa música tem um cabelo vermelho muito parecido com o seu. Qual é a sua história?"
"Minha história?"
"É. Todo mundo que conhece essa música tem alguma história com ela. Ainda mais você que parece ter idade pra ser neta do cantor."
Dessa vez, fui eu que ri. Porque ele não estava errado.
"Quando eu era pequena", me surpreendi falando de uma história que raramente eu achava importante o suficiente para contar a alguém, "meu pai cantava para minha mãe. E era muito bonito, muito engraçado, de ficar vendo. Ele tinha esse violão velho, que tinha até uma corda faltando, mas dava um jeito de tocar, indo atrás dela pela casa inteira, cantando essa música, que ela adorava. Quando ele morreu, pegando todo mundo de surpresa, eu passei semanas sem conseguir dormir direito. Por algum motivo, um dia, minha mãe foi até a minha cama e começou a cantar essa música. Nesse dia, eu voltei a dormir. Ela passou anos cantando essa música para me fazer dormir e, com o tempo, a gente passou a pensar nela com mais carinho e menos dor pelo meu pai."
"Que história, dona..."
"Alessandra".
"Você sabia", Roberto perguntou, "que o Ronnie Von tem uma filha com seu nome, dona Alessandra?"
"Sabia", eu ri. "Mas não precisa me chamar de dona, não. Apesar do gosto musical, eu só tenho 23 anos.
Tudo é igual, mas estou triste...
A voz de Ronnie Von se despedia da amada, da música e dos ouvintes da rádio Tempo FM quando eu perguntei:
"E a sua história, qual é?"
Roberto não se fez de rogado.
"Eu canto para minha esposa também, ela sempre adorou. Talvez porque a gente se conheceu em uma pracinha. É a cara dela. Por nosso casamento inteiro, eu levantei mais cedo, fiz o café e coloquei essa música no toca-fitas, só pra ver ela acordando feliz. Mas eu nunca entendi."
"Entendeu o que?"
"É uma música romântica, mas também é tão triste."
"É uma música de saudade, não é? Acho que as pessoas focam no que querem, no amor. O amor que, às vezes, falta na vida, mas está ali na música. Mas o que eu sei sobre amor com essa idade?"
"Que é isso? A gente nasce sabendo sobre o amor, sabendo amar, sabendo fazer poesia. É que tem gente que deixa isso tão guardado que nem sabe que tem. Tem gente que trata o amor como se fosse uma coisa besta, boba, mas é a única coisa que importa de verdade no mundo. Sem amor, nada faz sentido.
"Nossa", eu suspirei. "A sua esposa tem muita sorte de ter casado com alguém sensível que nem você, seu Roberto."
"Isso aqui é o estado natural de quem ama. Quando a gente ama de verdade, a vida muda, a pessoa muda. Deve mudar o cérebro também. E é como se um coração novo começasse a bater. Eu encontrei a única pessoa no mundo que faz eu me sentir assim. Graças a Deus, porque não tem jeito melhor de se sentir. E eu vou cantar essa música até o dia em que não tiver mais voz. Só porque eu sei que ela ama.”
Percebendo que o carro já se aproximava do meu destino final, me peguei perguntando, pensando um pouco nos meus pais:
"Há quanto tempo vocês estão juntos? Você e a dona..."
"Edite, o nome dela. Faz 10 anos hoje", ele respondeu, passando as costas da mão no rosto, visivelmente emocionado, me fazendo ter a certeza de que eu estava vivendo algo especial naquela manhã.
"10 anos", repeti, pensando comigo mesma que, afinal, não era tanto tempo assim. Mas podia ser a vida inteira que algumas pessoas tinham.
"10 anos hoje desde o dia em que fui obrigado a me despedir dela pela última vez. Mas eu ainda vou lá, onde ela tá esperando por mim, cantar a música dela. Deus me livre não ir lá cantar a música dela."
Foi só quando ele levou um polegar molhado a ela que eu percebi a foto colada atrás do volante. E Roberto alisou a foto, em preto e branco, de uma senhora sorridente, de olhos castanhos e brilhantes com o cabelo comprido e vermelho preso em uma grande trança.
Foi a última coisa que eu notei, antes das lágrimas turvarem minha visão e eu praticamente sair correndo do carro, para esconder o choro.
Enquanto fechava a porta do táxi, ainda consegui escutar a voz do seu Roberto, quase tão aveludada quanto à do Ronnie Von, cantarolar o trecho que, naquele mesmo instante, se repetia em minha cabeça nostálgica:
Tudo é igual, mas estou triste, porque não tenho você perto de mim.

Crônica perfeita! E ainda tem meu nome nela. Amei, de verdade. Sensação de nostalgia.