top of page

Ao mestre, com carinho

  • Foto do escritor: Maggie Paiva
    Maggie Paiva
  • 19 de out. de 2022
  • 4 min de leitura

Atualizado: 14 de nov. de 2022



Outro dia, eu estava finalizando um livro meu, de Literatura Infantil, quando me deparei com a pergunta: Para quem eu dedico esse?

Graças a Deus, eu já publiquei alguns livros (muitos nesse mesmo gênero) e tive a oportunidade de dedicar pelo menos um a cada uma das pessoas que eu mais amo.

Minha mãe, meu marido, meu irmão, meus sobrinhos… Verdade seja dita, até meus gatos já tiveram um livro meu dedicado a eles. Sempre, e por algum bom motivo, eu sabia desde o começo para quem dedicaria o livro que estava escrevendo. Mas não desta vez.

Quebrei a cabeça pensando nessa bendita dedicatória, um texto de duas ou três linhas que, naquele instante, me separava de ter um livro pronto diante de mim. Que coisa, viu?

De verdade, eu poderia dedicá-lo a qualquer pessoa. Mas o que eu realmente precisava era de um bom motivo. Eu sou muito sobre motivos. Bons, de preferência.

Quis Deus que eu me lembrasse de uma promessa que havia feito há muitos anos, para mim mesma. Era chegada a hora de cumpri-la e poucas coisas na minha existência tinham feito tanto sentido, em tão pouco tempo.

Quando eu tinha uns 13 anos, eu mudei para a escola onde permaneci até o final do ensino médio. Foi lá que eu conheci um professor de redação chamado Márcio Mesquita. E, com todo respeito aos excelentes professores que eu tive (de redação ou outras matérias), o Márcio foi o melhor de todos. Sem dúvidas, o meu preferido.

Veja bem, antes mesmo de eu ser uma leitora ávida, eu já gostava de escrever. Estranho, né? Eu também acho, mas foi assim que aconteceu. Então, eu sempre amei as aulas de redação até onde consigo me lembrar. Eu gostava de criar e contar histórias. Muito, a ponto de me tornar chata por conta disso.

Tia Silvania (porque, na minha época, as professoras eram chamadas assim) deve lembrar de uma ocasião, acho que na quarta série, em que eu fiquei extremamente chateada porque a atividade da aula de redação era qualquer outra coisa que não escrever uma história.

(Desculpa, professora. Eu prometo que melhorei.)


Mas esse é um relato para outro texto. Por enquanto, voltemos à minha adolescência.

Ter o Márcio como professor calhou de acontecer em uma época em que, entre tantas coisas, eu estava começando a me descobrir como escritora. Ele foi a primeira pessoa para quem eu mostrei os meus poemas. Fora das aulas mesmo. E ele lia, me incentivando a escrever mais.

Mas não apenas isso.

O Márcio foi a primeira pessoa que eu senti que acreditava em mim e no que eu escrevia. Até hoje, eu não tenho palavras para descrever ― com exatidão ― o quanto o estímulo dele foi crucial para minha escrita.

Ele foi meu professor por pouco mais de dois anos.

Um dia, já no primeiro ano do ensino médio, ele passou uma atividade para a classe, uma redação ― o que era bem normal para suas aulas. Por fim, ele levou as redações para ler em casa e devolver-nos na semana seguinte. Só que ele não voltou na próxima aula.


(Calma, tá? Apesar do meu drama, ninguém morre nessa história. O Márcio só aceitou outro trabalho.)


Tia Emiliana, nossa coordenadora, é que veio entregar as redações e transmitir o recado de despedida do Márcio. Para minha eterna vergonha, eu comecei a chorar, no meio da sala, diante da “perda” do meu professor preferido.


(E, com essa informação, eu vou poupar você, leitor, do restante dessa cena embaraçosa.)


O ponto é que, passado esse momento, eu abri a redação. E o Márcio tinha deixado um recado individual no final do texto de cada aluno.

Engraçado que eu lembro até a história que havia contado na minha folha, mas não me lembro das palavras exatas do professor no final dela. Mas me recordo: eram palavras de incentivo, algo sobre acreditar no meu potencial e continuar escrevendo.

Nesse dia ― talvez nesse instante ―, a Maggie de 15 anos fez uma promessa: um dia, iria escrever um livro muito bom e dedicá-lo ao Márcio, para agradecer pelo incentivo e mostrá-lo que ele não estava errado sobre mim.

Desde então, se passaram uns 14 anos e muitas coisas aconteceram, especialmente com relação à minha escrita. Sim, eu escrevi alguns livros (muito bons, quero acreditar). Não, eu não dediquei nenhum ao Márcio.

Não porque eu tenha me esquecido dele, muito pelo contrário. Mas, como eu disse, sou toda sobre bons motivos. E, entre todos que me surgiram desde então, talvez eu tenha mesmo esquecido a promessa que a minha outra versão fez para que eu cumprisse.


(Desculpa, Maggie de 15 anos. Fica tranquila que eu estou prestes a corrigir isso.)


De volta ao presente, diante do meu livro-quase-finalizado ― um dos textos que eu mais fiquei feliz por ter sido eu a escrever ―, aconteceu algo diferente com as minhas memórias.

Eu não me lembrei do meu professor. Lembrei-me, no entanto, da redação e do incentivo no final da folha. Com isso, me lembrei da promessa.

Infelizmente, eu não tenho nenhum contato com o Márcio hoje e não sei onde ou como ele está (espero que muitíssimo bem, porque ele era ― é ― uma pessoa maravilhosa).

Mas se, um dia, esse texto ou o livro com a promessa cumprida chegarem ao conhecimento dele, eu só queria que ele soubesse o impacto que causou. Se eu fosse água e ele, uma pedra, as ondas ainda poderiam ser vistas se formando, mais de 14 anos depois.

Por isso, o livro e este post são para ele. Mais que uma promessa, um pequeno sinal da minha gratidão:


Ao meu professor de redação Márcio Mesquita, que tanto me incentivou, ao acreditar em mim.

Ei, professor, eu continuei escrevendo.

Obrigada.


1 comentário


ligia.reis2389
20 de out. de 2022

Maravilhoso!!!

Curtir

Ouvir Estrelas:

Assine agora mesmo a minha newsletter "Ouvir Estrelas"

e fique por dentro de tudo que eu publicar!

©2022 por Maggie Paiva. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page